A Premissa do Prazer

Movimentos jubilosos são executados na genitália. A tentativa de gozo neste momento de solidão é impedida pelos pensamentos pertinentes que invadem a mente: o tempo é cíclico? Tudo que aconteceu ontem retornará amanhã? Pode até ser que em sujeitos diferentes, a idéia, a alegria, a angustia retornem provocando o mesmo sentido, a mesma probabilidade. Por isso, podemos escrever a respeito da nossa situação e algum leitor em distância geográfica e temporal, terá empatia pelo escrito. Compartilhamento de idéias. E ao olhar ao redor cada vez mais possuo a afirmação de que Deus não existe. Porém, como os crentes não olham ao redor, caso olha é de maneira compassiva, penosa, não constatam a realidade. Ficar fitando o céu, devaneiando na presença possível de alguma coisa além de nós mesmos, mas não há nada fora da nossa percepção é ela que forma nosso mundo…
Por que não cesso de pensar? Devido a isto o pênis ficou flácido. Não tenho mais vontade de continuar. Levanto-me, lavo a glande e ao me retirar do banheiro percebo que, até a masturbação não proporciona mais o saciamento da minha pessoa. Necessito de companhia.
Desculpe-me, iniciei o meu relato mundano e nem me apresentei, chamo-me Alex. Há anos, cerca de dois pra ser exato, que não me relaciono, de forma sexual, com alguém. Permaneci até então entre varias ou poucas companhias. Sem, todavia, me estabelecer. Porém, profissionalmente consegui um ótimo patamar. Exerço a profissão de psicólogo, terminei o mestrado dois meses atrás, começo a planejar o meu doutorado: a vontade dos homens perante os objetos. Uma tentativa de mostrar o quanto todos nós, não galgamos autonomia perante as coisas, pois crescemos as desejando, contudo, sem perceber que proporcionalmente ficamos ausentes de nós mesmos por causa do consumo. Ou seja, aproximamos do plástico do que do orgânico. Passo o dia no consultório, lotado, deparando com inúmeros casos. Todavia, busco mostrar ao paciente a melhor forma de eles enfrentarem o problema, por si mesmos. Apesar de realizar tudo isto, não consigo satisfazer o meu corpo, não só ele, mas toda a minha constituição. Sozinho me encontro na maior parte do tempo em casa. Prostitutas já pensei. Contudo tive receio. Não sem bem o porquê, elas seriam ideal para o momento, visto que só pretendo sexo.
Todavia, continuo na mesma. Sem ninguém. Apenas com objetos e imaginações. Entratnto, o tempo dá o seu parecer, a lua conquista o seu lugar no céu, e um sinal aparece: bipe de mensagens do celular. A mensagem recebida era de Sandra, garota que pensava não mais ser interessada na minha pessoa. A mensagem dizia que ela aparecerá por volta das onze na minha casa, a esperança retornou. Se há um minuto atrás, estava coberto de tédio, neste instante me turbilhono em expectativas (mesmo compreendendo que a expectativa corresponde a uma falsa sensação, pois nada se realizava da forma que planejamos. Apenas o contrário). Preparo tudo, depois do banho fico na sala ouvindo algum som que só me faz distrair até a chegada do prazer.
Pontualmente ela chega, trajada num vestido que realçava as melhores partes. De frente àquilo conclui que a noite viria a ser muito satisfatória, conversamos e bebemos, quando o álcool já nos consumia, começamos a replicar carícias, beijos, despejados em várias partes dos nossos corpos. Enfim, seguimos ao quarto.
Novamente fui iludido pela expectativa, engraçado, antes imaginava que ocorreria várias posições (conseqüência de filmes pornôs), porém, ocorreu normalmente, sem “inovações”. Mas não havia como esquecer, nem desejo, aqueles bustos encostados no meu tórax executando movimentos excitantes. O sangue concentrado na genitália provocou um prazer outrora esquecido. Apesar de básico, o ato fora ótimo, não reclamo, só desejo mais!
Fui à cozinha para beber um copo de água e retornando ao quarto, Sandra já se arrumava para ir embora, solicitei para ela ficar um pouco mais, e ela disse: – Vim apenas para saciar-me. Não pretendo ir mais além. – repliquei dizendo ter a mesma vontade e por isso a admirava. Tínhamos correspondências de pensamentos. Então pronunciei num impulso: – Devíamos nos casar. Temos desejos símiles. – Sandra olhou de soslaio enquanto meneava negativamente a cabeça exclamou: – Não percebe o que me pede? Casamento causa-me repulso! – repliquei ser idem. Ela pediu para continuar-mos desta maneira, outro dia qualquer voltaria a nos ver. Demos o último beijo e ao Sandra se retirar, percebi que ainda tinha prazer para saciar, logo fui ao banheiro!

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No Limite da Escolha

O tempo em que ele estava ali já não podia ser mensurado. A nunca coisa que podia ser dita era que se encontrava naquele lugar já fazia tempo. Muitos que por ali passavam não dava mínima a ele, pois era uma pessoa sem qualquer atrativo mundano. Contudo, como qualquer coisa tem seu limite, as pessoas começaram a se incomodar, andavam de um lado para o outro, avistava-o de soslaio, cogitava as diversas possibilidades de quem se tratava e o que planejava estando ali parado tanto tempo fitando o vazio. Miguel, jovem de vinte e três anos, branco, cabelos caracolados, nariz levemente empinado, sentado na praça de um bairro que nunca tinha ido antes. Ele sentou e começou a questionar como, por que, mesmo galgando enorme independência nunca tinha se debandado para aquele lado da cidade, sempre, sempre, se situou na região conhecida, construída, o que o impedia de sair do conhecido?
Obviamente, ainda não podia responder a isso, apenas sabia que hoje, nesta terça feira decidiu ir para um lugar que nunca tinha ido, onde, estranhos era o habitual, o destino, o planejamento não podia ser assegurado por nada, mas tinha um compreensão previa de que partir a algum lugar ainda não desvendado o impedia pelo fato de desconhecer completamente as vias e para qual fim destinava. De tal modo que, ali, sentado, debaixo de um pé de cajueiro, percebia o acaso permanente do mundo, qualquer plano era uma possibilidade de sucesso ou fracasso. Ali, Miguel compreendeu que o ano podia ser 1979, mas, entretanto estava em 2007 e qualquer pensamento foi e será repetido e quanto aquela sensação de não saber para qual direção seguir, não era única nele, normalmente podia ser sentida por qualquer pessoa, se bem que ele não conhecia alguém que afirmou assim se sentir, apenas no máximo expressam ser um espasmo da vida que fora contaminada pelo sentir sozinho, mas que no dizer deles não é algo para se preocupar, porque poderia ser extinto por qualquer riso diante de um situação plástica que facilmente imputam como sendo importante. Então por que não consegue deixar de pensar?
Depois de tanto esparsos na mente, reluzindo imagens representativas de toda a vida passada, projetando futuros não concebidos. Miguel chegou a pueril conclusão de que tudo que podia ser e não é, pode um dia se tornar, não está nas suas mãos, estritamente falando, a concreção de todas as coisas. Fácil saber quando aquilo é, mas no que vem a ser, naquilo que não é, não podia assegurar qualquer preposição, qualquer certeza, teria de colocar o pé para descobrir, teria que respirar fundo e mergulhar no inaudito, porque se tudo tem seu limite até o seu mundo que ele representou tem um. Visto que há tantas possibilidades de ele vim a se tornar que qualquer barreira que viesse a colocar só resultaria num fracasso de tornar aquilo que é para ainda ser. Por isso, só de uma coisa tinha certeza, de hoje ser terça-feira, que estava sentado numa praça, debaixo da sombra de um cajueiro tão contingente quanto ele e todas a vias e pessoas que pela sua fronte caminhava, são possibilidades de algo que o mero pensar não pode dizer, apenas tinha de escolher um sem saber no que seria resultado, mas teria de escolher, pois aquele mundo antigo já não pode mais satisfazê-lo. Tornou-se ciente das suas potencialidades. Deste modo, Miguel se levantou e escolheu um dos caminhos.

Noite de Walpurgis

No caminho para casa, Carlos fita as colinas situadas no horizonte, o céu vermelho por entre as colinas indicava o fim de mais um dia. Logo a dama da noite vagueará pelo céu e as luzes da cidade enfeitarão as avenidas desta capital, pensou. No caminho do supermercado à residência, Carlos – homem forte, moreno, cabelos encaracolados e olhos grandes – notava que sentia um clima diferente nessa rua. Na verdade, não sabia dizer bem o motivo, mas desde que saiu do supermercado pressentiu algo diferente. Ouviu um estrondo. Reparou que fora um reator, faíscas cobriam as calçadas, Carlos se afastou e acelerou o passo, queria chegar logo em casa. A poucos metros da residência parou, pois uma das vizinhas, a D. Geovânia que morava na casa de andar na esquina vinha correndo, seu rosto estava ensanguentado.

A mulher corria gritando o nome do marido: Alberto! Alberto! Carlos correu para ajudá-la, mas num susto o esposo pulou em cima dela e começou a mordê-la, os dentes arrancavam pedaços de pele dos braços e do pescoço. Carlos diante daquela cena fugiu para casa, só que ao virar percebeu a rua invadida por seres moribundos com rosto ferido e grunhindo. São zumbis! Exclamou. Correu para o carro, no caminho a pequena Luci que geralmente brincava na porta da sua casa já tava transformada, ela tentou mordê-lo, mas Carlos a empurrou. No entanto, um mero empurrão não era o suficiente para afastá-la, na segunda tentativa de abocanhar o antigo vizinho, a pequena Luci recebeu uma paulada no rosto que a fez cair de vez no gramado. Em seguida, Carlos entrou no carro, que insensatez… Esqueceu que a chave estava dentro da casa. Olhou em volta ainda tinha espaço para correr, correu ate em casa, ao entrar viu a chave na escrivaninha, pegou e antes de sair deu uma última olhada nos seus pertences.

Já no lado de fora, Carlos viu que os zumbis já estavam por toda a parte e os últimos humanos eram devorados servindo de alimento aos mortos-vivos. Entrou no carro, ligou e acelerou. Alguns dos zumbis tentavam se jogar na sua frente, mas Carlos desviava e ao manter-se numa linha segura, começou a pensar num plano: vou para as colinas, elas estão afastadas de toda a cidade. Calculou o combustível, pelo que tinha no tanque daria para ir até o começo das colinas, em diante partiria andando. Melhor tentar do que ser comido por eles, concluiu. Entretanto, no caminho uma mulher no meio da estrada pedia ajuda, Carlos percebeu que ela ainda continuava humana, parou e mandou-a entrar. A mulher, alta, magra, cabelos ruivos e lisos falavam continuamente que procurava pelo filho e que o mundo estava no fim. Carlos não sabia como acalmá-la apenas disse do plano e ela continuou chorando. Foi quando a mulher disse que teria de parar no hospital, pois estava ferida…
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Filosofar com o Martelo

Sobre o filósofo alemão Nietzsche posso afirmar que é um dos pensadores mais conhecidos do mundo tanto para especialistas quanto para leigos. Principalmente se restringirmos ao âmbito da filosofia, pois ao perguntamos a um leigo a cerca da filosofia muito possível que ele reportará seja aos gregos, aqui refiro a Platão e Aristóteles, ou a Nietzsche, talvez outro que possam indicar seja Marx devido a grande influencia política no século XX e um pouco confundindo Freud com a classe dos filósofos. Porém raramente você verá alguém reportar por exemplo a Kant. Que como sabemos foi o grande divisor de  águas da filosofia depois de Aristóteles. Pode colocar talvez Sartre, mas sinceramente hoje em dia, Sartre não carrega tanta publicidade como tempos atrás e hoje quem ouviu falar de Sartre, também ouviu falar de Kant. Diferente de Nietzsche. Mas com toda essa comoção ao pensamento de Nietzsche será que as pessoas conhecem Nietzsche? Refletem sobre seus pensamentos? Claro que não. Tanto mais porque, muitos utilizam da filosofia de Nietzsche como espécie de auto-ajuda, recorrendo a aforismo soltos sem qualquer identificação com o obra em si.

Assim, entender a expressão “Deus está morto” é de um labuta tamanha que as pessoas viram a página numa rapidez que não percebe a “novidade” ali presente. Porque, primeiro, Nietzsche não diz que Deus não existe e sim que ele morreu, ou seja, o que antes dava fundamento e sentido as nossas ações já permanece ausente. Seu imperativo não é mais considerado. Uma das grandes coisas é que quem matou não foram os descrentes, porém os que acreditavam nele firmamente, carregavam a sua “palavra” com ferro e fogo, procurava avaliar esse mundo de acordo com um mundo além que aos poucos foi sendo verificado como fumaça espúrea sem o pingo de força para julgar as ações humanas. A partir disso, a sombra do Deus morto nos circundo e hoje presenciamos o fundamentalismo que é exatamente na ausencia de fundamento que a violência se sobressai na procura de que ao menos desse modo o antigo sentido possa ser glorificado. Mas de acordo com Nietzsche é exatamente por querer carregar esse antigo sentido, meta, não prestar atenção ao novo que o homem contemporâneo está entregue à afirmativa: é tudo em vão. Aí o Niilismo reina e homem perdurá nesse século na completa falta de sentido, na escuridão do “assim foi”! Porém, Nietzsche traz um outro conceito para contrapor a esse niilismo ativo negativo que cada vez nos circunda, qual seja o conceito de além-homem (Übermensch).

O que vem a ser o além-homem? Como é sabido por muitos anos tinha como recorrente a tradução de Übermenschcomo super-homem provocando enormes equívocos no pensamento. Porque daria atender que Nietzsche indica um homem elevado a extra-ordinárias habilidades como ocorre com o personagem da HQ. Não. Nietzsche com o além-homem quer indicar um novo modo de ser humano totalmente diferente do que temos conhecido até hoje, onde sua força é “alimentada” pela vontade de poder inerente a si mesmo, não se sustenta a nada que seja exterior, porque se arvorar em qualquer coisa exterior a si mesmo é sinal de fraqueza. Por isso, ele é além, não há nada hoje que o simboliza, ele está além… Segundo, esse além não refere a um plano transcendente que encaminha para um novo mundo. Jamais. A transcendência do além-homem é horizontal e pertencente a terra, como Nietzsche escreve em Assim falou Zaratustra: devemos salvar a terra. Salvar no sentido de fornecê-la suas potencialidades para que nada a impeça de tornar aquilo que ela é. Além do que Nietzsche no subtítulo de sua autobiografia Ecce Homo sublinhou: Como tornar-se aquilo que já é. O além-homem como sendo um horizonte ele é aberto a atual humanidade, não uma simples meta, ou crença, mas um modo de pensar que influencia nossas ações, para que aos poucos compreendamos que devemos transformar o “assim foi” num “assim eu quis”.

É por isso que Nietzsche permanece ainda hoje um enigma e as pessoas consumindo sem saber o motivo cai cada vez no abismo, porém não dançando, e sim rogando preces a algo que nunca virá, pois Deus está morto!

Ponto final

Um copo de café. O velho copo tão habituado neste horário. Um fim de tarde com sol vermelho. Roberto engole aquele líquido, enquanto o pensamento seguia para algum lugar que ele não sabia. Freqüentemente eles fogem do sujeito sem dar satisfação, resultando num sentir próprio: a solidão. Roberto organizou os papéis da mesa, a todo o momento tinha que arrumá-los. Era essa a ocupação dele quando estava lendo ou escrevendo alguma coisa. Colocou o livro na sua frente, o copo no seu lado e ajeitou a cadeira. Concentrado para as últimas três páginas. Depois de uma viajem de 338 páginas à França napoleônica, restavam somente estas três, que bom! Finalmente saberia como iria desenrolar o destino do protagonista, verdade que não o teve muita empatia, porém ficou à medida do tempo curioso com que poderia vir acontecer com ele. Esposa, amante, luta de espadas, copos de vinho e um spleen diário. Digno de uma historia de transição do romantismo ao realismo. Assim, Roberto lia cada palavra atenciosamente, ao mesmo tempo em que construía a imagem descrita pelo escritor, relembrava as outras pela qual passou, percebeu estarem interligadas, não podendo ser independente da que passava no momento. Com isto percebeu que o passado sempre tem ligação com o presente e posterior com o futuro, entretanto, se no romance a idéias estão concatenadas para um fim planejado pelo escritor, para vida não tinha certeza de ocorrer o mesmo. Roberto parou a leitura por uns segundos e nestes, refletiu que se caso a vida fosse também escrita, ela não seguiria a lógica narrativa, pois perderia a autenticidade, com certeza a vida estaria ligada à lógica do pensamento. Sendo construída por imagens pulsantes, sobrepostas uma a outra com um resultado não esperado pelo ser pensante. Aí sim. A vida seria digna de ser vivida. Sem mais refletir, Roberto retornou a leitura. Suas retinas forneciam as informações necessárias para o entendimento do leitor, esforço em “adivinhar” o final daquela história. Apesar de já saber que o protagonista já havia tido a cabeça guilhotinada a mando do governo da França, ainda havia os dois filhos tido com a esposa, qual seria o destino deles? Obviamente seria ficar com a mãe, entretanto ela estava à beira da morte devido a um peste que assolou a vila que morava. No final, a emoção de saber o fim estava palpitando enormemente em Roberto. Não poderia pular logo para página final? Não. Já havia seguido uma linha leitura até agora, não seria no fim que quebraria este teu plano tão bem lapidado. Trinta páginas de manhã e vinte à noite, cinqüenta por dia. Roberto fez uma média de dois minutos para cada página. Assim ele seguia na sua leitura que já chegava à última página. “Pela emoção, não posso responder.” Roberto leu com voz alta a primeira frase. Então, o celular tocou, eram os amigos chamando-o para sair, disse a eles que poderiam passar na casa dele porque estaria aguardando-os. Voltou a ler. Faltavam não mais que três parágrafos, mas a cabeça ficou um pouco perturbada, devido pensar em qual lugar sairia esta noite. Será que encontraria Marta? Roberto torcia para que isso acontecesse já fazia certo tempo que esperava por esse encontro. Com a mente um pouco confusa, retornou duas linhas antes para se situar novamente no romance. Contudo levantou-se e foi tomar um copo d’água. Os amigos não viriam agora. Sempre demoram. Depois do copo d’água sentou na escrivaninha. Viu o ponto final, queria chegar nele e terminar a sua jornada e começar a outra que já o aguardava. Agora seguiria para a Rússia, mais especificamente São Petersburgo. Lá se foi… No último parágrafo, de cinco linhas, os amigos chegam e buzinam. Mais de três vezes. A concentração sumiu não tinha mais a mente para o romance, queria ter, mas não tinha. Estava impossível ter sua atenção voltada para o livro. E agora? O que deveria fazer? Os amigos já chamavam o seu nome. Não havia muito que fazer, pegou o marca página colocou-o no livro e fechou, mas antes de sair com os amigos fitou o ponto final e não mais deixou de tê-lo na sua mente.

Em tempo de Cinismo

Facilmente podemos arranjar desculpas pelos atos que deveríamos realizar, pois nesse tempo classificado como pós – tudo facilmente cria-se meios para explicar o ato feito ou não feito. Explicamos que se tivesse um pai rico, se morasse num país desenvolvido ou se a situação política oferecesse certa segurança, poderíamos agir de forma diferente. Só que, enquanto, o outro não nos apresenta essas possibilidades, ficamos apenas à mercê para onde “a maré nos leva”. Sem ressaltar que, hoje, o sistema democrático nos dar de forma inventiva o suposto de sermos o que nós somos e se alguém vir a nos julgar do contrário, simplesmente podemos dizer: Não posso agir de outra forma.
Não obstante, recordo um pensamento filosófico que até se tornou moda mundial nas décadas posteriores à segunda guerra: o existencialismo. Principalmente a filosofia do ícone deste movimento: o francês Jean-Paul Sartre. Que relatava nas suas obras, produzindo do teatro ao ensaio, que o homem está condenado a ser livre. Livre porque estar sempre apto a escolher. Visto que a escolha é o fator construtivo do ser humano, pois este não vem ao mundo já determinado. Não há uma natureza humana. Ele, através das vivencias entre as diversas contingências que são presenciadas durante o labutar, é quem se faz ser. E como o indivíduo fora “jogado no mundo”, ele é responsável por tudo quanto fizer a si mesmo para se definir perante a situação encontrada no mundo. Porém, essa definição de si não cai no mero individualismo, pois cada homem está ligado de forma subjetiva à humanidade. Assim, o ato que um homem realiza não terá como conseqüência somente para si mesmo, mas para toda a humanidade e seu curso na história. É o drama vivido por Hugo, personagem da peça teatro mãos sujas de Sartre, um militante de esquerda que para retirar as tropas alemãs que invadiram a França, teria de se aliar aos militares de direita, ficando assim a pensar se o seu ato entrará na história como ato de traição ou heroísmo para os próximos militantes possíveis em surgir.

A partir daí, se defrontarmos a ética dos dias de hoje com a formulada por Sartre, verificamos como a ética atual é facilmente desconstruída pela impossibilidade de uso das inúmeras e infundadas desculpas que facilmente presenciamos. Desde o casal de namorados, onde um tenta se explicar dizendo que a bebida o fez cometer a traição, até políticos que se unem à antigos opositores explicando que na política é tudo assim mesmo. Não deixando de ressaltar que os fatos presentes são realizados sem o menor sentimento de angústia, a qual para Sartre é exemplar do ser humano, quando este escolhe se engajar em uma condição, pressente a angústia dominar todo o corpo, pois é nesse momento que o homem sente a sua gratuidade no mundo, por perceber que não há nada por trás, e somente ele estar de frente com a situação. E como o próprio filósofo fala no livro o Ser e o Nada: aquele que não sente a angústia, deve estar alienado ou age de má-fé. Agir de má-fé para Sartre é colocar a culpa sempre no outro ou em algo, como a situação financeira, no sistema qual vive, o local onde nasceu ou meramente inventando determinações para si. Deste modo, tenta evitar o enfrentamento consigo mesmo para com a responsabilidade. Assim, neste tempo onde o cinismo, por excelência, reina. É bom revisitarmos pensadores que coloca o ser humano de frente com a sua história, Sartre é um desses.

A Palavra do Cínico Hedonista

Diversas podem ser as funções sociais que a filosofia dispõe ao homem. No entanto, grande parte das funções depende da relação do ente à época e ao conceito social no qual vive. Isso se deve pela necessidade de averiguar os erros que a sociedade apresenta o que culminaria numa visão crítica de mundo. O filósofo francês Michel Onfray enquadra-se nestes seres que tem dentro de si a posição crítica e oferece aos semelhantes o jeito de enxergar o dia a dia sem máscaras; muitas das vezes, essas máscaras estagnam o indivíduo, deixando-o a mercê da real pretensão das inúmeras instituições que o cerca.
A posição tomada por Onfray, dita pela maioria como radical, frente às três maiores religiões monoteístas é um exemplo de como incitar o surgimento de duvidas a respeito dos ideais pregados pelos protetores dos dogmas religiosos, expondo a verdadeira pretensão deles a cerca dos assuntos mais contundentes contemporaneamente. Utilizando o fator “culpa” para uma intimidação, os formadores de ideais não fornecem espaço a reflexão adequada sobre temas como: aborto, eutanásia, uso de preservativos e o avanço da bioética, qual destacado, na entrevista cedida uma das edições da veja, por Michel Onfray. Não obstante, como ressalta o filósofo, essas religiões no decorrer da historia fizeram uso da idéia de Deus para cometer vários atos de atrocidade em busca de benefício fato largamente conhecido pela sociedade. Mesmo assim, varias vezes o senso-comum coloca-se contra investigações deste filósofo. Porém, compreende-se que a verdadeira forma de utilizar a filosofia é no campo do senso-comum, indo contra as idéias mais frívolas até os de senso inquestionável. Assim como, criticando a própria opinião do filósofo. Sendo um trabalho investigativo, a todo o instante não se há de questionar tudo que colocam em si? Relacionando-se de maneira, digamos, céticas? Desse modo apreendendo o motivo correto para agir, falar, de certa maneira e esta maneira beneficiará a alguns ou bastantes. Continue lendo