Jogo

O dia já estava no fim, não havia mais o que fazer, apenas esquecer aquilo deixado para trás, edificar a possibilidade do amanhã, plano a ser feitos por Manu. Jovem esbelta, tez parda, cabelos ondulados, tinha a idade de 24 anos, quando estavam sendo nada a fazer caminhava até a delicatessen próxima a sua casa e lá tomava um copo de café com alguns folhados. O olhar reto para a paisagem, a mão levantava lentamente o copo à boca qual soprava afastando o calor da boca e bebia, quando não a ponta da língua  era coberta pela quentura do líquido.

Nesse ínterim revolvia dentro de si imagens, recordações associadas a vivencias nos instantes da vida: tristeza, alegria, dor, prazer, solidão, ambiência. Dicotomias experimentadas por qualquer um, mas com Manu era intensificados e vividos nos seus detalhes e jubilados em cada memento mori. Contudo, neste dia um modo de pensar a consumia: a aparência de si diante dos outros, especificamente dos homens, Manu refletia se o tempo já desgastou o seu perfil e as siluetas tornaram comuns. Não que ela desejasse ser especial, mas o sentimento de comum é algo que prejudica o evoluir e, como ela pensava, aceitar o comum é padecer no mesmo, fugir da mudança. Manu defendia a tese de que a imagem era o que preenchia a convivência social de forma que a outra pessoa afetada por sua aparência sempre retornava, por isso que algumas pessoas eram mais procuradas do que outras, a sua presença engrandecia o ambiente, deixava com que elas se sentissem a vontade.

No entanto, Manu sabia que, até para conseguir isso, há um equilíbrio, no qual não deixava se tornar num objeto lascivo. Porém, Manu sentada num das cadeiras, repousava as mãos na mesa e avistava a certa distancia um rapaz que lhe fornecia certa atração, uma vontade de estar a mais com ele, compartilhar assuntos e encontrar afinidades. Assim, ela decidiu que quando ele estivesse mais próximo jogaria seu charme e, doravante, colocava em xeque o jogo da aparência. O rapaz a fitou, contribuindo para uma maior segurança à Manu, ela levantou o copo indicando um convite e sorriu, entretanto, o rapaz abaixou a cabeça e seguiu o seu rumo, sumindo na esquina. Oh! A tristeza embateu sobre Manu sentindo estar faltando algo, não sabe o que, mas teria uma falta. “Eu não devia ter feito isso, devia ter ficado quieta, fui seguir minha vontade, fui rejeitada” pensou.

Triste levantou, pagou a conta e seguiu andando, refletindo no comum que havia se tornado, a sua presença não tinha mais tanta força, precisava modificar algo, para na próxima não vir a repetir o mesmo resultado. Respirou fundo, passava por uma praça, olhou em volta, já estava no outono as folhas das arvores caiam no chão, a brisa noturna tocava nela, as crianças jogavam bola na quadra, naquele momento Manu já esquecia do ocorrido minutos atrás, foi quando que… Num dos bancos da praça aquele rapaz estava sentado, ela passaria e nem ia olhar para ele, já é passado. Todavia, ele levantou foi na direção dela e a convidou de maneira gentil para jantar num restaurante ali próximo, no mesmo tempo, Manu entendeu que havia algo mais do que um simples jogo de aparência.

Na verdade, isso tornou claro para ela, anteriormente não houve uma recíproca por causa de um detalhe, foi ela que investiu e não o inverso, desse modo, o rapaz sentiu fora de rumo, sua compreensão de mundo não concernia a essa ação. Manu aceitou o convite, foram ate o restaurante, porém dentro dela sabia que aquele rapaz se tratava de uma pessoa acostumada ao comum.

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Na espera do encontro

Já se foi o tempo em que Sebastião deixou de crer em coisas grandiosas. Agora só importava aqueles detalhes advindo de uma conversa sem interesse qualquer, ou de uma lasca de pau que aparecia no canto da porta. No domingo, dia habitual em que o tédio o incomodava, saiu caminhando pelas ruas sem destino apenas virava esquinas após esquinas, até que viu de longe uma bela mulher que trajava um belo vestido e os cabelos encaracolados curtos dava um ar de elegância que agradava enorme mente a Sebastião. Ele se aproximou aos poucos reparando no que ela estava fazendo, percebeu que fitava alguns sapatos na vitrine de uma loja, Sebastião tentou fazer o mesmo para que assim, talvez, pudesse encontrar uma brecha para um diálogo. Se aproximou, ficava revesando entre olhar os sapatos da estante para a desconhecida, aproximou ainda mais dela, porém não atraiu a atenção, o que resultou foi de apenas ela se afastar e ir embora. Ela saiu caminhando e virou a esquina. Sebastião ficou inconformado e foi atrás dela e num ato impensado exclamou: Ei!

O resultado foi um olhar de desprezo da mulher que não tirou de Sebastião o ímpeto de conhecê-la e disse: Estou caminhando por aí e de repente você me chamou a atenção pelo seu modo de se comportar, perguntei a mim mesmo “Quem será aquela mulher? Qual o nome dela?” desculpe-me pois diante das várias intempéries que encontramos na nossa vida muito possível de nunca mais vir a te ver, assim pergunto: quer me acompanhar na minha andança. A mulher um pouco receosa, porém intrigada pela maneira de como aquele homem negro a intimou e replicou: Não quero saber pra onde você vai ou para onde veio, certo que estou aqui a pouco tempo, por isso as pessoas não me despertaram qualquer interesse em conhecer, porém por respeito a ti, eu te acompanharei por alguns instantes. Meu nome é Letícia e o seu? Sebastião falou de maneira garbosa o nome e andaram alguns metros pela cidade um tanto sem expressão, os assuntos eram ao menos sem objetivo, apenas tentativas para uma aproximação de interesses. Contudo, as opiniões não se chocavam, realmente pareciam ser divergentes, já que se ele preferia cerveja, ela vinho, se ele salgado, ela doce, se ele gostava de sair pelo dia, ela pela noite. Aos poucos, Sebastião percebia que dessa aproximação já decorria uma frustração. Ouvia aquela voz estridente, arranhando o ouvido. Queria de alguma forma sair desse encontro repleto de desconforto.

Todavia, ao passar por um sebo viu aquele título que tanto procurava e nunca encontrava, sempre dado como esgostado. Alegrou parou um pouco pra vitrine, Letícia olhou pra ele, percebeu um tanto hipnotizado e pensou que devia deixá-lo quieto, já não tinha mais espaço e ademais queria retornar pra casa.  Aproximou e disse que ia embora, não mais do que até mais ela veio receber de Sebastião, que entrou no sebo e perguntou quanto custava, ao ouvir o preço muito abaixo do esperado só o fez alegrar ainda mais. Com o livro nas mãos correu pra casa e só pensava no fato de que justamente por não ter chamado aquela mulher que já não lembra mais o seu nome. Pronto, agora só restava a Sebastião se deliciar pelo encontro que pensou jamais se efetivar.