A Febre do Rato – o descontrole da vida.

Cláudio Assis traz uma subversão à tela de cinema com seus filmes que procuram ir ao fundo na personalidade humana, que afogada pelas tensões cotidianas mergulham num comodismo sem fim. Além do que fecha com toda a possibilidade de ser algo além da aparência, na verdade o homem se esquece sendo animal e não permite que seus instintos produzam algo além do que está controlado. Desse modo, Cláudio Assis traz com seus personagens esse lado desenfreado, puro corpo e instinto, como ele define no seu filme Amarelo Manga: o homem é estômago e sexo. Justamente essa definição perdura nos próximos filmes e com olhar anarquista procura trazer ao espectador um sentimento de ver o sujo, o lodo, não para que nos afastemos, e sim adentrar nessa situação e promover uma comemoração contínuo desse lado marginal. Com isso, A Febre do Rato é uma película que nos fornece uma outro modo de viver a vida, uma estética de existência. Qual é a história desse filme?

Trata de apresentar a vida de um poeta maldito recifense, Zizo, o qual através do seu jornal A Febre do Rato procura fornecer a população poesias que remetem ao sentimento caótico, subversivo, da vida. Afastando de toda moralidade instituída pela sociedade, apresenta um outro lado do viver. Soltos, livres, amantes. Executa com seus amigos, as desavenças, os conflitos de ser quem é. Contudo mesmo através da forma livre de viver, não indica que o outro se torna um objeto, jamais, ele é alguém pelo qual compartilha todas as intempéries, os desejos, e a conquista ainda tá lá presente, mesmo que isso indique o sofrimento. Porém é tudo desaparecido pelo sorriso, pela alegria, sem prestar atenção se veio a ser um ridículo, já que o ridículo está na visão presente da moralidade. Nesse caminho, Zizo conhece Eneida, menina linda que foge das palavras do poeta, porém essa fuga é uma volta, um encontro, um embate que perdura até o limiar do desparecimento da personalidade. Perto do final do filme ocorre uma cena emblemática que figura no proposito final que o Cláudio Assis que apresentar, em meio ao 7 de setembro, o grupo seguido pelo poeta começa reclamar pelo direito de errar. Maneira simples de subverter as ordens, porque na verdade estamos presos no sucesso, na vitória que esquecemos sobre o erro, que bem ou mal nos forma, nos consolida e transforma continuamente.

Claro que podemos ver alguns erros, na minha opinião ingenuidade em certos momentos, porque aquele recife é o do Cláudio Assis (ainda bem que existe esse Recife), a lascividade não é tão aberta e aceita, tanto mais se fosse com certeza o Cláudio não teria feito os seus filmes. Porém, o mais importante é a oferta que essa película fornece a nós, não que executaremos tudo que o filme nos propõe, apenas pelo fato de apresentar que há outra via, diferente da que nos ensinaram e levamos no nosso dia a dia. Assim, assistir A Febre do Rato antes de tudo é abrir a mente para outras possibilidades de viver, não que sejam utópicas, mas somente o saber que há essa possibilidade nos fornece uma subversão e uma inversão de tudo aquilo que tentaram introjetar na nossa formação do caráter. Com isso proclamo junto com o poeta Zizo: Anarquia e Sexo, pelo direito de errar!

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O locus do foi

O tempo do agora se perfaz na ânsia daquilo que já foi. Esse foi se orienta como reino de nossa lembrança, já que a lembrança é um momento que nos provoca a pensar o que podemos ser diante da morbidez do ocorrido. Nesse caminho, pensamos sobre o ser, o qual não se reduz a uma palavra vazia, nem ao local onde perdura nossas possibilidades. Mas, ali, entre muros, nos projetando para o que estamos sendo diante do que já fomos. Sendo, somos alguma coisa que escapa do nada que podemos vir a ser, visto que a única coisa que sabemos concerne aquilo que já passamos. Diante desse passado, mesmo com atos estúpidos, caracteriza-nos como aquilo que somos, repletos de olhar para o futuro incerto da nossa pobreza de sentimentos.

Efêmero Feminino I

Em trânsito para casa, Manuela fita o horizonte sem aguardar qualquer coisa, apenas dirige seu automóvel num movimento maquinal sem espaço para reflexão em cada virada nas esquinas. Esquinas permeadas de barulhos enjoativos que só a fazem  querer chegar ao mais rápido em casa, descansar após um dia de vários ires e vires. Tão logo que chegou em casa, tirou a roupa e entrou no banho, após algum tempo banhando seu corpo, sai e coloca uma roupa mais confortável. Senta na frente do PC olha as atualizações dos amigos, nem parece que o dia é outro, está a mesma coisa e as mesmas pessoas postando seus assuntos triviais. De vez em quando alguém aborda algum assunto interessante e ela resolve fazer um comentário. Num período de tempo ocorre uma discussão, porém breve ela enxerga que aquele falar não irá para qualquer direção, somente aquelas posições tão bem conhecidas. Será que alguma coisa inusitada poderá acontecer? Já não aguardava por isso…

Levantou-se e resolveu comer. Não tinha muito apetite, passando pelo espelho olhou para si e julgou que estava engordando, porque não se mantém num peso sempre independente do que aconteça na vida? Assim poderia saborear vários pratos, beber como se não houvesse amanhã e comer várias guloseimas sem se preocupar se a sua barriga iria criar uma saliência que viesse incomodar. Mas isso é privilégio para aqueles que não possuem preocupações. Sentada na cozinha pega um talher, começa a manuseá-lo e nisso a lembrança começa a trabalhar, lembra de quando soube estar grávida, o quanto isso a emocionou, o desejo de ser mãe a acompanhava ao menos desde os 17 anos, mesmo planejando nunca casar tinha certeza de que queria ter um filho. Porém a gravidez veio com um rapaz que nos primeiros meses parecia bem solícito, só que aos poucos foi mostrando a sua máscara e, no fundo, a visava somente para aliviar as tensões do dia e não que isso queira significar alívio de tensões para Manuela. Na verdade, depois do primeiro mês quando ele subitamente se alojou no apartamento dela já não tinha tanta atenção, carinho quanto era no início. A procura era somente por sexo e nas horas que se sentia muito sozinho ter alguém para escutar os seus problemas. Como é que fui ficar por três meses com ele? Pensava seguidamente. Depois de ter conseguido romper qualquer relacionamento com ele, descobriu que estava grávida, contou a Roberto, contudo ele desdenhou dizendo que não podia ter certeza de que ele era mesmo o pai, já que nas últimas semanas ela estava fria e distante e não mais fazendo sexo com o mesmo prazer que tinha antes, desse modo, estava saindo com os outros homens. Manuela sabia que era dele, antes se fosse de outro, porque assim não teria de olha-lo novamente. De qualquer maneira, Roberto recusou a paternidade e disse que não a queria mais vê-la. Furiosa com a situação, foi pra casa, nunca mais teve notícia de Roberto.

Depois dessa lembrança, Manuela levantou-se e preparou um café, sentou no sofá da sala e retornou a lembrar daqueles momentos. Pois, após do afastamento de Roberto, Manuela se via sozinha, já que tava morando em outra cidade, longe da família, na perspectiva de realizar o doutorado em Geografia, vivendo numa metrópole onde o custo era altíssimo. Ela triste decidiu consigo mesmo, sozinha, procurar um clínica que pudesse fazer o aborto. Ela tinha uma enorme vontade de ser mãe e, justamente, por compreender a importância da maternidade, ter o filho naquelas condições, na situação em que ela se encontrava seria um desastre. Não porque estava sendo egoísta e uma maternidade lhe retiraria das possibilidades de ascensão financeira, mas sabia que se sacrificasse tudo que ela estava construindo, fatalmente decairia num fracasso consigo e o peso seria entregue totalmente à criança que jogada naquele contexto, já nasceria carregando uma dívida pela qual nunca poderia pagar. Além do que  sabia que corria o risco de não ter outra oportunidade em ter um filho, pois mesmo com seus 25 anos não se pode projetar certezas para a vida, pois a indeterminação é o fulcro principal que carrega nossas decisões. Superando todas essas dificuldades procurou uma clínica e realizou o procedimento de interromper a gravidez.

Apesar dessa triste lembrança, ela sabia que fez a coisa certa, já que aqueles que podiam critica-la nunca fez nada pra ajuda-la, alguns até mesmo nem sabiam qual era o seu nome. No anonimato teve alegria, no anonimato teve tristeza. Depois de tomar o café sentou na frente do computador e começou a escrever um conto que retratava essa experiência.