A Flora da pele

O nome dela era Flora, uma mulher engraçada ao mesmo tempo quieta. Poucos sabiam do que ela trabalhava, mas ninguém ousou perguntar a ela. Apenas dia após dia, Flora caminhava pelo centro da cidade fitando as lojas e pensativa não entrava em nenhuma delas. Ao chegar no seu apartamento, sempre via aquela roupa para arrumar no armário, porém sempre deixava para outro dia. Sentada, tomando café planejava o que fazer no fim de semana, muito provável que iria ser o que vem fazendo tempo após tempo: nada. Flora tinha muitos amigos, entretanto gostava de ficar sozinha, segundo ela mesma, consiste na melhor forma de conversar com a pessoa que mais lhe entende: consigo mesma. O solipsismo soava arrogância, só que era muito mais humildade. Para quê gastar o tempo dos outros com os assuntos banais que decorria da sua mente? Melhor parar um pouco e permanecer olhando para sua pele que envelhecia ano após ano.

mulher-sentada-de-costas-d0fd3Flora tinha comprado um pacote de canais da TV a cabo, porém raramente assistia TV. Gostava de sentar na sacada do apartamento e no pôr do sol, abrir um livro e deixar que a sua imaginação trabalhasse. Geralmente quando ia numa livraria comprava uns dez livros, só que preferia muito mais ler do autor que ela gostava mais Júlio Cortázar. Mais especificamente “O Jogo da Amarelinha”. Ela se identificava com Maga, a ingenuidade e a ternura da personagem deixava-a imaginativa com sua própria vida.  Mas, o que pode ser melhor para Flora do que essa vida branda, calma que levava? Com certeza morar numa metrópole lhe tiraria dessa inércia e espontaneamente a conduziria a momentos mais inebriantes. Só que a mulher estava acostumada com a vida que levava, imaginava se alguns dias cruciais da sua vida tivessem tidos rumos diferentes, onde ela estaria agora? Numa casa de praia, com filhos, cachorro e um marido? Ou guiando a gerência de uma multinacional, tendo vários subalternos a seu alcance? Acho que Flora imaginava mais se ela tivesse seguido os conselhos de Glória de entrar no partido socialista, pois sua inteligência poderia ajudar na militância sobre as causas que afligiam o país. Entretanto, Flora caminhou pela trilha do comum e inesperado. Justamente diante do paradoxo de acontecer muitas coisas quando ela estava parada é que a deixava mais intrigada.

Assim, mesmo do possível tédio que poderíamos captar da vida de Flora tudo percorria da maneira que agradava a ela, e não por ser mulher, mas por ter teimosia de não guiar pela moda. Alinhava de acordo com o próprio pensamento, não importando se amanhã uma ou outra pessoa deixaria de falar com ela. Mas singela trazia novos amigos, mesmo que alguns sendo superficiais, mas o novo sempre vêm não importa como. E Flora sabia disso, portanto deixava que tudo a envolvesse e que sua pele queimasse de emoções invisíveis aos olhos dos outros.