Bergson – Existência e Tempo

A duração, filha da intuição, encontra-se deturpada/alterada uma vez que a inteligência a projeta no espaço.

A duração toda pura é a forma que toma a sucessão de nossos estados de consciência quando nosso ego deixa viver, quando ele se abstém de estabelecer uma separação entre estados presentes e estados anteriores. Ele não tem necessidade, por isso, de absorver  toda entrada na sensação em que a ideia passa, pois então, ao contrário, ele cessa de durar. Ele não tem mais necessidade de ocultar estados anteriores: ele basta chamar esse estados, ele não justapõe os estados atuais como um ponto à um outro ponto, mas os organizam consigo, como acontece ao lembrarmos, por assim dizer em conjunto, às notas de uma melodia. Não se pode dizer que, se essas notas sucedem, nós a percebemos nada mais que uma depois da outra, e que dela unida é comparável a um ser vivo, cuja as partes, embora distintas, se penetram por efeito mesmo de sua solidariedade? A prova é que  se nos rompem a medida em insistência mas que da razão por nota da melodia, não é longamente exagerada, enquanto longa, nos avisará de nosso falta, mas a mudança qualitativa contribui para o conjunto da frase musical. Pode-se então conceber a sucessão sem a distinção, e como uma penetração mútua, uma solidariedade, uma organização intima de elementos, cuja cada um, representante do todo, não se distingue e somente se isola para um pensar capaz de abstrair. Tal é sem nenhuma dúvida a representação que se fez da duração no ser uma vez identificada e modificada, que se terá nenhuma ideia de espaço. Mais familiar dessa última ideia, obcecada mesma por ela, apresentamos nosso conhecimento em nossa representação da sucessão pura; nos justapõem nosso estado de consciência de maneira aperceber-se simultaneamente, não mais um que outro, mas lado a lado do outro; enfim, projetamos o tempo no espaço, exprimimos a duração em extensão, e a sucessão tomada para nós a forma de uma linha contínua ou de uma corrente, cuja as partes se tocam sem se penetrar.

Ensaio sobre os dados imediatos da consciência, capítulo II, da multiplicidade de estados da consciência, a ideia de duração.

Tradução de Thiago Dantas.

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O Choro de África

O Choro de África – Agostinho Neto

O choro durante séculos 
nos seus olhos traidores pela servidão dos homens 
no desejo alimentado entre ambições de lufadas românticas 
nos batuques choro de África 
nos sorrisos choro de África 
nos sarcasmos no trabalho choro de África

Sempre o choro mesmo na vossa alegria imortal 
meu irmão Nguxi e amigo Mussunda 
no círculo das violências 
mesmo na magia poderosa da terra 
e da vida jorrante das fontes e de toda a parte e de todas as almas 
e das hemorragias dos ritmos das feridas de África

e mesmo na morte do sangue ao contato com o chão 
mesmo no florir aromatizado da floresta 
mesmo na folha 
no fruto 
na agilidade da zebra 
na secura do deserto 
na harmonia das correntes ou no sossego dos lagos 
mesmo na beleza do trabalho construtivo dos homens

o choro de séculos 
inventado na servidão 
em historias de dramas negros almas brancas preguiças 
e espíritos infantis de África 
as mentiras choros verdadeiros nas suas bocas

o choro de séculos 
onde a verdade violentada se estiola no circulo de ferro 
da desonesta forca 
sacrificadora dos corpos cadaverizados 
inimiga da vida

fechada em estreitos cérebros de maquinas de contar 
na violência 
na violência 
na violência

O choro de África é um sintoma

Nós temos em nossas mãos outras vidas e alegrias 
desmentidas nos lamentos falsos de suas bocas – por nós! 
E amor 
e os olhos secos.

A falência da democracia

Estamos situados num tempo em que a política passa por momentos de enorme reflexão. Pois não temos mais a certeza de que nossas ações possam fornecer algum resultado para o que nos aflige. Talvez o problema seria essa espera massiva pelo resultado, o que resultaria num campo técnico em que transformaria nossos setores como meios para alguma benécie. Com isso, somos cada vez mais motivados a perguntar pelo processo democrático em que estamos inseridos. Para isso, primeiro, temos de voltar a origem do termo e como ele foi usado para a política contemporânea.

o Sofista na democracia grega.

Sabemos que a etimologia da palavra democracia é demo=povo + cracia=poder, sendo a Grécia antigo o lugar de onde surgiu como forma política para decisão das necessidade sociais. Reunidos na Ágora os cidadãos decidiam sobre os rumos da cidade, entretanto, há de destacar quem eram esses cidadãos. Eram homens, no sentido do gênero, não escravos, adultos e com a sanidade aprovada por todos, e diante dessas características já são cortadas quase 2/3 da população grega. Assim, facilmente deparamos com estudos questionando a existência real de uma democracia na Grécia antiga. A invalidade desse questionamento parte do fato de que se crê em estarmos ao alcance da democracia real em que se poderia afirmar a existência, ou não, num determinado tempo e espaço. Aqui começa o problema, porque ao fim, até hoje não sabemos na prática o que vem a se dá uma democracia, quais os seus avanços. O máximo que temos é a partir da via negativa, denunciando sistemas totalitários, com o poder centrado em uma pessoa. Mas pior do que o poder está centrado numa pessoa é ele encontrar-se numa segmento institucional  ou numa rede compartilhada por várias instituições, pois esse centramento facilmente ama se esconder. Porém, vamos rapidamente retornar a proveniência do ideal democrático que convive entre nós. Continue lendo

Efêmero Feminino III

Qualquer mudança na ordem das coisas atrai uma camada de reclamações, mas pouco percebe os alcances que podem ocorrer quando pensamos atribuir uma possibilidade a pessoas que nem imaginavam possuí-la. Esse foi um caso que aconteceu com a senhora Constança. Não vou me alongar muito porque não estava presente quando aconteceu o caso, o meu relato para esses raros ouvintes será do ouvir dizer. Numa tarde de quarta-feira, a senhora Constança foi para casa e chegando viu que ninguém mais se encontrava por lá, sozinha, olhou para cada cômodo da casa e sem um rastro de ser vivente, deitou-se e começou a chorar. O choro veio de maneira impensada sem motivo maiores, porém, tão logo recompôs foi para cozinha e preparou algo pra comer, quem sabe faria um bolo. Os seus três filhos chegariam da escola e até que seria bom presenteá-los com um bela guloseima. Sem outras interrupções começou a preparar o bolo. Mas de qual sabor? De macaxeira? De leite? Ou, de ovos? De ovos!

untitledEssa cena, caro ouvinte, pode lhe parecer bem frívola, habitual, ordinária. E, assim, já começa a rebuliçar na cadeira pensando se deve ou não continuar ouvindo esse relato. Bom, a escolha é sua, mas te falo que o importante não está na cena descrita, e sim no que impeliu a essa senhora chegue em casa e após chorar, fosse na cozinha preparar o bolo para os filhos. Então, primeiro, digo que o motivador  dessa ação é pelo fato de que a Constança finalmente chegou em casa, no meio da semana e antes dos filhos, dando a possibilidade de ela preparar algo para que as suas crias possam saborear uma comida feita pela própria mãe. Pois, em dez anos de trabalho rarissímas foram as vezes que essa cena pode repetir, na verdade, ela chegava em casa lá para as altas horas os filhos já dormiam no seu sétimo sono e quando não, dormia no local de trabalho e, assim, só apareceria em casa durante o fim de semana. Sem contar que durante esse tempo no trabalho a sua vida ficava à mercê dos patrões, mesmo que o horário viesse a ser inumano, a senhora implicitamente continuava o seu trabalha e de maneira cínica os patrões pediam “favores”, pequenas coisas que não viriam dar trabalho à senhora. Porém, hoje conseguiu chegar em casa e já havia terminado o bolo.

Os filhos chegando em casa ficaram surpresos com a presença da mãe naquele horário. Deram um abraço coletivo. E a mãe sorridente falou que tinha preparado bolo para eles. Os meninos correram para pegar seus pedaços. Então um deles perguntou: “Mãe! O que aconteceu pra tá em casa agora?” A senhora Constança respondeu que agora chegaria nesse horário, pois houve uma mudança no trabalho que não somente estaria essa hora em casa, como também, aos sábados só ficaria até 12:00 no trabalho e, assim, curtiria o fim de semana com eles. Esse mudança deveu-se ao PEC 478/2010 que forneceu condições trabalhista à doméstica em que a partir de agora teria 8h de jornada de trabalho ao dia, além do que um dia de folga nos fins de semana. Essa lei foi promulgada durante o exercício de presidencia de uma outra senhora: Dilma Rousseff. Esta que não teve voto da professora Constança, porque os seus patrões falaram para a Constança que outro candidato iria atender não apenas o interesse dela, mas dos próprios patrões. Claro que após esse acontecimento, os patrões ficaram bastante raivosos com o governo por dar direito aqueles que os estavam servindo e quanto aquele que era beneficitário do serviço não tinha a mobilidade que tanto os acomodavam. Porque agora, para sair a noite não seria tão divertido porque os seus filhos ficariam sozinhos em casa sem algum responsável. No primeiro momento pensou em não contar mais com o serviços de Constança, mas prevendo uma dificuldade maior em contratar preferiu mantê-la e seguir os novos diretrizes. Inclusive, porque com essa senhora arrogando direitos que só existiam aos patrões, o custo ficaria tão grande, que poderia realizar um sacrifício para manter com o “artigo de luxo” que agora presentava a eles.

Em sentido contrário, a senhora Constança finalmente podia sair pro trabalho sabendo que ao fim do dia iria sorrir com os filhos e apesar de aparentar uma pequena mudança, seria substancialmente grande para os caminhos ainda a trilhar.

A Flora da pele

O nome dela era Flora, uma mulher engraçada ao mesmo tempo quieta. Poucos sabiam do que ela trabalhava, mas ninguém ousou perguntar a ela. Apenas dia após dia, Flora caminhava pelo centro da cidade fitando as lojas e pensativa não entrava em nenhuma delas. Ao chegar no seu apartamento, sempre via aquela roupa para arrumar no armário, porém sempre deixava para outro dia. Sentada, tomando café planejava o que fazer no fim de semana, muito provável que iria ser o que vem fazendo tempo após tempo: nada. Flora tinha muitos amigos, entretanto gostava de ficar sozinha, segundo ela mesma, consiste na melhor forma de conversar com a pessoa que mais lhe entende: consigo mesma. O solipsismo soava arrogância, só que era muito mais humildade. Para quê gastar o tempo dos outros com os assuntos banais que decorria da sua mente? Melhor parar um pouco e permanecer olhando para sua pele que envelhecia ano após ano.

mulher-sentada-de-costas-d0fd3Flora tinha comprado um pacote de canais da TV a cabo, porém raramente assistia TV. Gostava de sentar na sacada do apartamento e no pôr do sol, abrir um livro e deixar que a sua imaginação trabalhasse. Geralmente quando ia numa livraria comprava uns dez livros, só que preferia muito mais ler do autor que ela gostava mais Júlio Cortázar. Mais especificamente “O Jogo da Amarelinha”. Ela se identificava com Maga, a ingenuidade e a ternura da personagem deixava-a imaginativa com sua própria vida.  Mas, o que pode ser melhor para Flora do que essa vida branda, calma que levava? Com certeza morar numa metrópole lhe tiraria dessa inércia e espontaneamente a conduziria a momentos mais inebriantes. Só que a mulher estava acostumada com a vida que levava, imaginava se alguns dias cruciais da sua vida tivessem tidos rumos diferentes, onde ela estaria agora? Numa casa de praia, com filhos, cachorro e um marido? Ou guiando a gerência de uma multinacional, tendo vários subalternos a seu alcance? Acho que Flora imaginava mais se ela tivesse seguido os conselhos de Glória de entrar no partido socialista, pois sua inteligência poderia ajudar na militância sobre as causas que afligiam o país. Entretanto, Flora caminhou pela trilha do comum e inesperado. Justamente diante do paradoxo de acontecer muitas coisas quando ela estava parada é que a deixava mais intrigada.

Assim, mesmo do possível tédio que poderíamos captar da vida de Flora tudo percorria da maneira que agradava a ela, e não por ser mulher, mas por ter teimosia de não guiar pela moda. Alinhava de acordo com o próprio pensamento, não importando se amanhã uma ou outra pessoa deixaria de falar com ela. Mas singela trazia novos amigos, mesmo que alguns sendo superficiais, mas o novo sempre vêm não importa como. E Flora sabia disso, portanto deixava que tudo a envolvesse e que sua pele queimasse de emoções invisíveis aos olhos dos outros.

Sorriso, um mero detalhe.

Noites frias são comuns nas nossas vidas, não adianta praguejar pelo destino. Ele está em algum lugar distante a todas reclamações, desse modo pergunto: porque se importar se algo poderia ser ou não diferente? As coisas que já foram não podem mais ser repetidas, as palavras vazias tentadas ao relento são a única expressão que você pode tentar entrever no limiar das diferentes opiniões. Todos nós procuramos ser compreendidos, mas para quê? Se tão rapidamente seremos julgados como errados? Não adianta querer fazer tudo correto, você irá errar! Isso é inevitável. Então o que nos resta? Já não mais nada do que caminhar e por mais que fuja dos rótulos terá algum momento que você será taxado por alguém. Esse alguém pode não ser importante naquele instante da sua vida, mas será importante para o restante do caminho, já que aquele rótulo te perseguirá e por mais que venha negar as características que o compõe te perseguirá e fatalmente dará razão ao teu rótulo.

Entretanto, não se engane que não se tem mais saída, que tudo está consumado e que o vermelho se tornou a única cor, a cor do pavilhão que sua pessoa caminha inconsciente para a última súplica de arrependimento. Não há espaço para arrependimento, seja íntegro com você mesmo. Dizer que os outros não te trataram bem não importa para os ouvidos já delineados pelos comportamentos impostos pela tradição, o que lhe resta é viver. Vida que não pode ser simplificada em mero valores ou pela busca de uma razão maior do que lhe aparenta. Pois a aparência reina quando estamos buscando por essências, porque essas não são possíveis a nós… Para o fim de tudo isso, deixe o sorriso penetrar na sua personalidade, não feche a boca para as dificuldades, pois por mais que fique rodeado de amigos no momento mais especial para você, estará só e com isso terá de lidar com as intempéries consigo mesmo, o seu grande inimigo. Porém ao fim de tudo notará que o sorriso é um mero detalhe, mas te fortifica para enfrentar os fantasmas que você mesmo criou.

A Febre do Rato – o descontrole da vida.

Cláudio Assis traz uma subversão à tela de cinema com seus filmes que procuram ir ao fundo na personalidade humana, que afogada pelas tensões cotidianas mergulham num comodismo sem fim. Além do que fecha com toda a possibilidade de ser algo além da aparência, na verdade o homem se esquece sendo animal e não permite que seus instintos produzam algo além do que está controlado. Desse modo, Cláudio Assis traz com seus personagens esse lado desenfreado, puro corpo e instinto, como ele define no seu filme Amarelo Manga: o homem é estômago e sexo. Justamente essa definição perdura nos próximos filmes e com olhar anarquista procura trazer ao espectador um sentimento de ver o sujo, o lodo, não para que nos afastemos, e sim adentrar nessa situação e promover uma comemoração contínuo desse lado marginal. Com isso, A Febre do Rato é uma película que nos fornece uma outro modo de viver a vida, uma estética de existência. Qual é a história desse filme?

Trata de apresentar a vida de um poeta maldito recifense, Zizo, o qual através do seu jornal A Febre do Rato procura fornecer a população poesias que remetem ao sentimento caótico, subversivo, da vida. Afastando de toda moralidade instituída pela sociedade, apresenta um outro lado do viver. Soltos, livres, amantes. Executa com seus amigos, as desavenças, os conflitos de ser quem é. Contudo mesmo através da forma livre de viver, não indica que o outro se torna um objeto, jamais, ele é alguém pelo qual compartilha todas as intempéries, os desejos, e a conquista ainda tá lá presente, mesmo que isso indique o sofrimento. Porém é tudo desaparecido pelo sorriso, pela alegria, sem prestar atenção se veio a ser um ridículo, já que o ridículo está na visão presente da moralidade. Nesse caminho, Zizo conhece Eneida, menina linda que foge das palavras do poeta, porém essa fuga é uma volta, um encontro, um embate que perdura até o limiar do desparecimento da personalidade. Perto do final do filme ocorre uma cena emblemática que figura no proposito final que o Cláudio Assis que apresentar, em meio ao 7 de setembro, o grupo seguido pelo poeta começa reclamar pelo direito de errar. Maneira simples de subverter as ordens, porque na verdade estamos presos no sucesso, na vitória que esquecemos sobre o erro, que bem ou mal nos forma, nos consolida e transforma continuamente.

Claro que podemos ver alguns erros, na minha opinião ingenuidade em certos momentos, porque aquele recife é o do Cláudio Assis (ainda bem que existe esse Recife), a lascividade não é tão aberta e aceita, tanto mais se fosse com certeza o Cláudio não teria feito os seus filmes. Porém, o mais importante é a oferta que essa película fornece a nós, não que executaremos tudo que o filme nos propõe, apenas pelo fato de apresentar que há outra via, diferente da que nos ensinaram e levamos no nosso dia a dia. Assim, assistir A Febre do Rato antes de tudo é abrir a mente para outras possibilidades de viver, não que sejam utópicas, mas somente o saber que há essa possibilidade nos fornece uma subversão e uma inversão de tudo aquilo que tentaram introjetar na nossa formação do caráter. Com isso proclamo junto com o poeta Zizo: Anarquia e Sexo, pelo direito de errar!