A Flora da pele

O nome dela era Flora, uma mulher engraçada ao mesmo tempo quieta. Poucos sabiam do que ela trabalhava, mas ninguém ousou perguntar a ela. Apenas dia após dia, Flora caminhava pelo centro da cidade fitando as lojas e pensativa não entrava em nenhuma delas. Ao chegar no seu apartamento, sempre via aquela roupa para arrumar no armário, porém sempre deixava para outro dia. Sentada, tomando café planejava o que fazer no fim de semana, muito provável que iria ser o que vem fazendo tempo após tempo: nada. Flora tinha muitos amigos, entretanto gostava de ficar sozinha, segundo ela mesma, consiste na melhor forma de conversar com a pessoa que mais lhe entende: consigo mesma. O solipsismo soava arrogância, só que era muito mais humildade. Para quê gastar o tempo dos outros com os assuntos banais que decorria da sua mente? Melhor parar um pouco e permanecer olhando para sua pele que envelhecia ano após ano.

mulher-sentada-de-costas-d0fd3Flora tinha comprado um pacote de canais da TV a cabo, porém raramente assistia TV. Gostava de sentar na sacada do apartamento e no pôr do sol, abrir um livro e deixar que a sua imaginação trabalhasse. Geralmente quando ia numa livraria comprava uns dez livros, só que preferia muito mais ler do autor que ela gostava mais Júlio Cortázar. Mais especificamente “O Jogo da Amarelinha”. Ela se identificava com Maga, a ingenuidade e a ternura da personagem deixava-a imaginativa com sua própria vida.  Mas, o que pode ser melhor para Flora do que essa vida branda, calma que levava? Com certeza morar numa metrópole lhe tiraria dessa inércia e espontaneamente a conduziria a momentos mais inebriantes. Só que a mulher estava acostumada com a vida que levava, imaginava se alguns dias cruciais da sua vida tivessem tidos rumos diferentes, onde ela estaria agora? Numa casa de praia, com filhos, cachorro e um marido? Ou guiando a gerência de uma multinacional, tendo vários subalternos a seu alcance? Acho que Flora imaginava mais se ela tivesse seguido os conselhos de Glória de entrar no partido socialista, pois sua inteligência poderia ajudar na militância sobre as causas que afligiam o país. Entretanto, Flora caminhou pela trilha do comum e inesperado. Justamente diante do paradoxo de acontecer muitas coisas quando ela estava parada é que a deixava mais intrigada.

Assim, mesmo do possível tédio que poderíamos captar da vida de Flora tudo percorria da maneira que agradava a ela, e não por ser mulher, mas por ter teimosia de não guiar pela moda. Alinhava de acordo com o próprio pensamento, não importando se amanhã uma ou outra pessoa deixaria de falar com ela. Mas singela trazia novos amigos, mesmo que alguns sendo superficiais, mas o novo sempre vêm não importa como. E Flora sabia disso, portanto deixava que tudo a envolvesse e que sua pele queimasse de emoções invisíveis aos olhos dos outros.

Lembrança

Na terra de João Álvaro a monotonia reinava no ir e vir dos concidadãos, das incongruências existentes na expressão passiva de cada um só restava a João sentar na sua cadeira de balanço enquanto mascava fumo. Os pensamentos geralmente era levados pela imagem da vizinha, que com seus 21 anos atiçava o velho cansado da mesmice que tinha na casa. Usualmente as 17h quando o sol já se despedia daquela região, Marta passava pela frente da residência caminhando pra faculdade. Nisso, João fitava aquela silhuetas, o cabelo vermelho cobria as costas ao mesmo tempo em que eram balançados pelo movimento do corpo. Naquela vida de aposentado, a alegria diária condizia a passagem daquela menina-mulher que de maneira meiga cumprimentava: Oi senhor João! E este apenas sorria e levantava a mão.

João Álvaro com seus 75 anos só imaginava como seria alisar aquele corpo juvenil, passar a mão naquela bunda que empinava a cada dia que passava, sem contar beijar aqueles seios e senti-los durinhos nas suas mãos, enquanto ela suspirava lentamente no ouvido daquele ancião. Tudo isso só passava de um mero sonho, tanto mais porque com seu corpo cansado não aguentaria nem 5 minutos com aquela mulher. Contudo, lembrou de quando ela namorava o seu filho e de vez em quando dormia na sua residência, pois  numa certa vez, instigado pela possibilidade de vê-la nua se aproximou do quarto do filho quando Marta trocava de roupa, sabendo que o filho estaria fora de casa por um bom tempo poderia usar disso pra suprir seu desejo, sem contar que tinha a esperança de jogar uma ideia na qual poderia ter momentos mais lascivos com aquela mulher. Entretanto, ao estar diante da porta respirou fundo e o coração começou a palpitar tanto que deixou pra lá, resolvendo ficar quieto na sua posição…

Lembrando daquele momento o pênis ficou ereto e João apertou com a mão bem forte enquanto via Marta virando a esquina. Suspirou. Baixou a cabeça e sentiu triste pelo fato de que aquela beleza só podia desfrutar à distância e jamais teria próximo de si, pensou em ir num puteiro a noite para ao menos receber um oral e beijar alguns peitos, mas estava sem grana, o dinheiro mensal da aposentadoria já havia acabado. Com isso, só restou entrar em casa e se masturbar porque a esposa Eleonora daqui a pouco chegaria em casa e com ela já não conseguia ter mais prazeres.

Jogo

O dia já estava no fim, não havia mais o que fazer, apenas esquecer aquilo deixado para trás, edificar a possibilidade do amanhã, plano a ser feitos por Manu. Jovem esbelta, tez parda, cabelos ondulados, tinha a idade de 24 anos, quando estavam sendo nada a fazer caminhava até a delicatessen próxima a sua casa e lá tomava um copo de café com alguns folhados. O olhar reto para a paisagem, a mão levantava lentamente o copo à boca qual soprava afastando o calor da boca e bebia, quando não a ponta da língua  era coberta pela quentura do líquido.

Nesse ínterim revolvia dentro de si imagens, recordações associadas a vivencias nos instantes da vida: tristeza, alegria, dor, prazer, solidão, ambiência. Dicotomias experimentadas por qualquer um, mas com Manu era intensificados e vividos nos seus detalhes e jubilados em cada memento mori. Contudo, neste dia um modo de pensar a consumia: a aparência de si diante dos outros, especificamente dos homens, Manu refletia se o tempo já desgastou o seu perfil e as siluetas tornaram comuns. Não que ela desejasse ser especial, mas o sentimento de comum é algo que prejudica o evoluir e, como ela pensava, aceitar o comum é padecer no mesmo, fugir da mudança. Manu defendia a tese de que a imagem era o que preenchia a convivência social de forma que a outra pessoa afetada por sua aparência sempre retornava, por isso que algumas pessoas eram mais procuradas do que outras, a sua presença engrandecia o ambiente, deixava com que elas se sentissem a vontade.

No entanto, Manu sabia que, até para conseguir isso, há um equilíbrio, no qual não deixava se tornar num objeto lascivo. Porém, Manu sentada num das cadeiras, repousava as mãos na mesa e avistava a certa distancia um rapaz que lhe fornecia certa atração, uma vontade de estar a mais com ele, compartilhar assuntos e encontrar afinidades. Assim, ela decidiu que quando ele estivesse mais próximo jogaria seu charme e, doravante, colocava em xeque o jogo da aparência. O rapaz a fitou, contribuindo para uma maior segurança à Manu, ela levantou o copo indicando um convite e sorriu, entretanto, o rapaz abaixou a cabeça e seguiu o seu rumo, sumindo na esquina. Oh! A tristeza embateu sobre Manu sentindo estar faltando algo, não sabe o que, mas teria uma falta. “Eu não devia ter feito isso, devia ter ficado quieta, fui seguir minha vontade, fui rejeitada” pensou.

Triste levantou, pagou a conta e seguiu andando, refletindo no comum que havia se tornado, a sua presença não tinha mais tanta força, precisava modificar algo, para na próxima não vir a repetir o mesmo resultado. Respirou fundo, passava por uma praça, olhou em volta, já estava no outono as folhas das arvores caiam no chão, a brisa noturna tocava nela, as crianças jogavam bola na quadra, naquele momento Manu já esquecia do ocorrido minutos atrás, foi quando que… Num dos bancos da praça aquele rapaz estava sentado, ela passaria e nem ia olhar para ele, já é passado. Todavia, ele levantou foi na direção dela e a convidou de maneira gentil para jantar num restaurante ali próximo, no mesmo tempo, Manu entendeu que havia algo mais do que um simples jogo de aparência.

Na verdade, isso tornou claro para ela, anteriormente não houve uma recíproca por causa de um detalhe, foi ela que investiu e não o inverso, desse modo, o rapaz sentiu fora de rumo, sua compreensão de mundo não concernia a essa ação. Manu aceitou o convite, foram ate o restaurante, porém dentro dela sabia que aquele rapaz se tratava de uma pessoa acostumada ao comum.

Na espera do encontro

Já se foi o tempo em que Sebastião deixou de crer em coisas grandiosas. Agora só importava aqueles detalhes advindo de uma conversa sem interesse qualquer, ou de uma lasca de pau que aparecia no canto da porta. No domingo, dia habitual em que o tédio o incomodava, saiu caminhando pelas ruas sem destino apenas virava esquinas após esquinas, até que viu de longe uma bela mulher que trajava um belo vestido e os cabelos encaracolados curtos dava um ar de elegância que agradava enorme mente a Sebastião. Ele se aproximou aos poucos reparando no que ela estava fazendo, percebeu que fitava alguns sapatos na vitrine de uma loja, Sebastião tentou fazer o mesmo para que assim, talvez, pudesse encontrar uma brecha para um diálogo. Se aproximou, ficava revesando entre olhar os sapatos da estante para a desconhecida, aproximou ainda mais dela, porém não atraiu a atenção, o que resultou foi de apenas ela se afastar e ir embora. Ela saiu caminhando e virou a esquina. Sebastião ficou inconformado e foi atrás dela e num ato impensado exclamou: Ei!

O resultado foi um olhar de desprezo da mulher que não tirou de Sebastião o ímpeto de conhecê-la e disse: Estou caminhando por aí e de repente você me chamou a atenção pelo seu modo de se comportar, perguntei a mim mesmo “Quem será aquela mulher? Qual o nome dela?” desculpe-me pois diante das várias intempéries que encontramos na nossa vida muito possível de nunca mais vir a te ver, assim pergunto: quer me acompanhar na minha andança. A mulher um pouco receosa, porém intrigada pela maneira de como aquele homem negro a intimou e replicou: Não quero saber pra onde você vai ou para onde veio, certo que estou aqui a pouco tempo, por isso as pessoas não me despertaram qualquer interesse em conhecer, porém por respeito a ti, eu te acompanharei por alguns instantes. Meu nome é Letícia e o seu? Sebastião falou de maneira garbosa o nome e andaram alguns metros pela cidade um tanto sem expressão, os assuntos eram ao menos sem objetivo, apenas tentativas para uma aproximação de interesses. Contudo, as opiniões não se chocavam, realmente pareciam ser divergentes, já que se ele preferia cerveja, ela vinho, se ele salgado, ela doce, se ele gostava de sair pelo dia, ela pela noite. Aos poucos, Sebastião percebia que dessa aproximação já decorria uma frustração. Ouvia aquela voz estridente, arranhando o ouvido. Queria de alguma forma sair desse encontro repleto de desconforto.

Todavia, ao passar por um sebo viu aquele título que tanto procurava e nunca encontrava, sempre dado como esgostado. Alegrou parou um pouco pra vitrine, Letícia olhou pra ele, percebeu um tanto hipnotizado e pensou que devia deixá-lo quieto, já não tinha mais espaço e ademais queria retornar pra casa.  Aproximou e disse que ia embora, não mais do que até mais ela veio receber de Sebastião, que entrou no sebo e perguntou quanto custava, ao ouvir o preço muito abaixo do esperado só o fez alegrar ainda mais. Com o livro nas mãos correu pra casa e só pensava no fato de que justamente por não ter chamado aquela mulher que já não lembra mais o seu nome. Pronto, agora só restava a Sebastião se deliciar pelo encontro que pensou jamais se efetivar.

Completude

Durante o entardecer que cobria a paisagem, a jovem Marcela precipitava a cada instante o passo no seu habitual exercício no crepúsculo rodeando o parque tão monótono, que no profundo caminhar fomentava os desvarios dos transeuntes.  Captando os singelos olhares. Os olhos castanhos da bela jovem não disfarçavam o tédio carregado pelas perturbações cotidianas e pela falta de auto-suficiência. Marcela nos seus 27 anos já tinha suportado muitas conturbações pela sociedade, mas não impedia de ela continuar mantendo o seu ritmo, mesmo que alheio de prazeres ordinários.

Seu belo corpo luta contra o peso do tempo, cada silueta mostra a sofreguidão em manter-se curvilínea. A escassez dos recursos chegou, teria com isso de afastar dos moldes sociais para manter-se no tom de saúde beneficente para os seus planos. As pernas trambolhavam a cada reter dos pés no chão, possibilitando a visão do esforço de se sustentar numa pálida e fugaz procura de emoções vazias. Todos os anos da faculdade foram jogados fora por uma promessa não cumprida. Promessa não realizada por aqueles que rodeavam Marcela, o que só veio a firmar o fracasso nas relações cotidianas, assim ela se encontrava na posição de recomeçar um novo projeto guiado por suas próprias opiniões não mais sendo levada por juízos terceiros. Contudo, tal projeto ainda não fora levado a cabo.

No descanso da caminhada, Marcela sentou num dos bancos da praça descalçou seus pés, estendeu a perna deixando que os pés sentissem aquela grama tão confortante que deixaria por longo tempo num estado de reflexão sobre o devir sem ânsia para que ocorresse ao porvir. Marcela abriu a garrafa d’água tomou o líquido e cessou a secura da garganta, a seguir derramou nos pés o que restava na garrafa. Os pés molhados ficaram leves, confortáveis, não procurando qualquer distração apenas deitar na grama emudecida pelo jorrar cadente que os cobriu. Descansada, Marcela calçou os pés, saiu, não mais correndo, andando. Os passos tinham um ritmo que ressoava os sons de toques no chão. A própria marcela ouvia o som, desse modo, ela começou a divagar notas musicais, as quais apareceram na sua mente: fá, fá, si, sol, fá, fá, re, mi, sol, fá, fá…

Um pouco mais a frente, ela deparou com uma calçada bicolor, retornou a lembrança da infância quando ao deparar-se na mesma situação pulava nos blocos de cores similares. Retornou a fazer. Pulando de um preto a outro, provocou comentários dos concidadãos que por Marcela passavam: “Que mulher… Fica pulando, que nem uma criança sem juízo!” Ela não os escutava. Há bastante tempo não ligava para o que os outros pensavam a seu respeito. Cansada, retornou a andar, sorrindo volta para casa, lá alguém a esperava.

A espera não estava no nível do consciente, pois Laís posta na mesa da sala, cercada de papéis com uma calculadora e uma caneta na mão fazia levantamento dos gastos realizados pela empresa em que era contadora. Seus fios louros caíam de vez em quando sobre o papel, aí com uma das mãos colocava-os novamente para trás da orelha até o momento dela não suster volume e deixar novamente os fios caírem no papel, restando a Laís a repetir a ação inúmeras vezes.

Os dedos apertavam os números na calculadora de tal maneira que saltitavam de forma rítmica sem com que essa mecânica do movimento cansasse as mãos. Qualquer transtorno diante do trabalho repetitivo era amansado pelo modo de as mãos se movimentarem como estivessem tocando um piano ou qualquer instrumento parecido. O que só ajudava ainda mais a Laís, visto que sentia aliviada por ter encontrado esse emprego, após passar quase um ano e meio como uma bacharela em ciências contábeis desempregada, agora já fazia seis meses que se encontrava vinculada nessa empresa e pelo jeito não teria de preocupar com maiores desavenças nos próximos meses; assim esperava. Laís por um momento parou, olhou para o relógio e percebeu que a tarde esvaiu, com olhar vago apenas deixava as mãos movimentarem pelo seu abdômen.

Elas de maneira graciosa sentiam a superfície abdominal ausente de qualquer aspereza, os movimentos circulares relaxavam a mulher. Laís olhou para as mãos e as vendo segurando a dobra adiposa que havia se formado na altura da cintura. Ela então notou que já há algum tempo ficou desleixada para com o próprio corpo e a brancura da pele não estava mais garantindo expelir a beleza aos olhos terceiros. A seguir passou as mãos por cima dos seios levando-as até os braços formando um “x” sobre o tórax na busca do seu calor. Posicionando a cabeça para trás fechou os olhos para atentar ao som de teu redor, nesse estado de meditação não percebeu a entrada de Marcela que suada tava com as bochechas coradas. Ela sentou no sofá e descalçou os pés, então exclamou: Hoje corri mais do que o habitual!

Laís fitou a companheira levantou-se e seguiu até ela. De frente a Marcela tomou com as mãos a cabeça dela e a encostou na sua barriga e começou a alisar os cabelos negros da amante. Laís rindo, somente falou: Como é bom ter você aqui.  Marcela cruzou as pernas por trás da de Laís prendendo-a e acariciando com os pés a parte posterior da perna da companheira, retribuiu a satisfação de compartilhar o mundo com Laís através do estreitamento de uma vivência na mesma moradia e ainda acrescentou: Já fazia bastante tempo que nós merecíamos isso: olhar para o lado e percebermos que a outra está ali quando direcionamos o nosso olhar, isso só vem a me jubilar de prazer e orgulho por confluir momentos maravilhosos contigo!

Marcela então soergueu ficando de olho a olho para Laís, encostaram os seus lábios, emudeceu as línguas, repousando uma na outra, permitindo fluir a sensação de prazer e de calor entre ambas, manifestando a completude que elas tinham consigo, as seguranças se sustavam perante a alegria de situarem uma na outra, sem qualquer barreira viva que pudesse impedir o crescimento espiritual de uma mulher. Durante o ato, Marcela regozija por saber que tinha um porto seguro, onde por mais que a sociedade lhe trouxesse infortúnio saberia que ao encostarem-se, as imprecisões contidas no futuro seriam ínfimas para com o estandarte de possuir alguém compartilhando momentos profícuos de engrandecimento. Depois, soltou as pernas que engalfinharam com as da companheira enquanto que as mãos de Laís abraçavam bem forte a sua cintura, Marcela falou: Deixe-me banhar agora, estou suada. Laís soltou e na medida em que a namorada caminhava para o banheiro, fitou o seu caminhar e somente vinha a si um pensamento: Sou feliz!

 

A Premissa do Prazer

Movimentos jubilosos são executados na genitália. A tentativa de gozo neste momento de solidão é impedida pelos pensamentos pertinentes que invadem a mente: o tempo é cíclico? Tudo que aconteceu ontem retornará amanhã? Pode até ser que em sujeitos diferentes, a idéia, a alegria, a angustia retornem provocando o mesmo sentido, a mesma probabilidade. Por isso, podemos escrever a respeito da nossa situação e algum leitor em distância geográfica e temporal, terá empatia pelo escrito. Compartilhamento de idéias. E ao olhar ao redor cada vez mais possuo a afirmação de que Deus não existe. Porém, como os crentes não olham ao redor, caso olha é de maneira compassiva, penosa, não constatam a realidade. Ficar fitando o céu, devaneiando na presença possível de alguma coisa além de nós mesmos, mas não há nada fora da nossa percepção é ela que forma nosso mundo…
Por que não cesso de pensar? Devido a isto o pênis ficou flácido. Não tenho mais vontade de continuar. Levanto-me, lavo a glande e ao me retirar do banheiro percebo que, até a masturbação não proporciona mais o saciamento da minha pessoa. Necessito de companhia.
Desculpe-me, iniciei o meu relato mundano e nem me apresentei, chamo-me Alex. Há anos, cerca de dois pra ser exato, que não me relaciono, de forma sexual, com alguém. Permaneci até então entre varias ou poucas companhias. Sem, todavia, me estabelecer. Porém, profissionalmente consegui um ótimo patamar. Exerço a profissão de psicólogo, terminei o mestrado dois meses atrás, começo a planejar o meu doutorado: a vontade dos homens perante os objetos. Uma tentativa de mostrar o quanto todos nós, não galgamos autonomia perante as coisas, pois crescemos as desejando, contudo, sem perceber que proporcionalmente ficamos ausentes de nós mesmos por causa do consumo. Ou seja, aproximamos do plástico do que do orgânico. Passo o dia no consultório, lotado, deparando com inúmeros casos. Todavia, busco mostrar ao paciente a melhor forma de eles enfrentarem o problema, por si mesmos. Apesar de realizar tudo isto, não consigo satisfazer o meu corpo, não só ele, mas toda a minha constituição. Sozinho me encontro na maior parte do tempo em casa. Prostitutas já pensei. Contudo tive receio. Não sem bem o porquê, elas seriam ideal para o momento, visto que só pretendo sexo.
Todavia, continuo na mesma. Sem ninguém. Apenas com objetos e imaginações. Entratnto, o tempo dá o seu parecer, a lua conquista o seu lugar no céu, e um sinal aparece: bipe de mensagens do celular. A mensagem recebida era de Sandra, garota que pensava não mais ser interessada na minha pessoa. A mensagem dizia que ela aparecerá por volta das onze na minha casa, a esperança retornou. Se há um minuto atrás, estava coberto de tédio, neste instante me turbilhono em expectativas (mesmo compreendendo que a expectativa corresponde a uma falsa sensação, pois nada se realizava da forma que planejamos. Apenas o contrário). Preparo tudo, depois do banho fico na sala ouvindo algum som que só me faz distrair até a chegada do prazer.
Pontualmente ela chega, trajada num vestido que realçava as melhores partes. De frente àquilo conclui que a noite viria a ser muito satisfatória, conversamos e bebemos, quando o álcool já nos consumia, começamos a replicar carícias, beijos, despejados em várias partes dos nossos corpos. Enfim, seguimos ao quarto.
Novamente fui iludido pela expectativa, engraçado, antes imaginava que ocorreria várias posições (conseqüência de filmes pornôs), porém, ocorreu normalmente, sem “inovações”. Mas não havia como esquecer, nem desejo, aqueles bustos encostados no meu tórax executando movimentos excitantes. O sangue concentrado na genitália provocou um prazer outrora esquecido. Apesar de básico, o ato fora ótimo, não reclamo, só desejo mais!
Fui à cozinha para beber um copo de água e retornando ao quarto, Sandra já se arrumava para ir embora, solicitei para ela ficar um pouco mais, e ela disse: – Vim apenas para saciar-me. Não pretendo ir mais além. – repliquei dizendo ter a mesma vontade e por isso a admirava. Tínhamos correspondências de pensamentos. Então pronunciei num impulso: – Devíamos nos casar. Temos desejos símiles. – Sandra olhou de soslaio enquanto meneava negativamente a cabeça exclamou: – Não percebe o que me pede? Casamento causa-me repulso! – repliquei ser idem. Ela pediu para continuar-mos desta maneira, outro dia qualquer voltaria a nos ver. Demos o último beijo e ao Sandra se retirar, percebi que ainda tinha prazer para saciar, logo fui ao banheiro!

No Limite da Escolha

O tempo em que ele estava ali já não podia ser mensurado. A nunca coisa que podia ser dita era que se encontrava naquele lugar já fazia tempo. Muitos que por ali passavam não dava mínima a ele, pois era uma pessoa sem qualquer atrativo mundano. Contudo, como qualquer coisa tem seu limite, as pessoas começaram a se incomodar, andavam de um lado para o outro, avistava-o de soslaio, cogitava as diversas possibilidades de quem se tratava e o que planejava estando ali parado tanto tempo fitando o vazio. Miguel, jovem de vinte e três anos, branco, cabelos caracolados, nariz levemente empinado, sentado na praça de um bairro que nunca tinha ido antes. Ele sentou e começou a questionar como, por que, mesmo galgando enorme independência nunca tinha se debandado para aquele lado da cidade, sempre, sempre, se situou na região conhecida, construída, o que o impedia de sair do conhecido?
Obviamente, ainda não podia responder a isso, apenas sabia que hoje, nesta terça feira decidiu ir para um lugar que nunca tinha ido, onde, estranhos era o habitual, o destino, o planejamento não podia ser assegurado por nada, mas tinha um compreensão previa de que partir a algum lugar ainda não desvendado o impedia pelo fato de desconhecer completamente as vias e para qual fim destinava. De tal modo que, ali, sentado, debaixo de um pé de cajueiro, percebia o acaso permanente do mundo, qualquer plano era uma possibilidade de sucesso ou fracasso. Ali, Miguel compreendeu que o ano podia ser 1979, mas, entretanto estava em 2007 e qualquer pensamento foi e será repetido e quanto aquela sensação de não saber para qual direção seguir, não era única nele, normalmente podia ser sentida por qualquer pessoa, se bem que ele não conhecia alguém que afirmou assim se sentir, apenas no máximo expressam ser um espasmo da vida que fora contaminada pelo sentir sozinho, mas que no dizer deles não é algo para se preocupar, porque poderia ser extinto por qualquer riso diante de um situação plástica que facilmente imputam como sendo importante. Então por que não consegue deixar de pensar?
Depois de tanto esparsos na mente, reluzindo imagens representativas de toda a vida passada, projetando futuros não concebidos. Miguel chegou a pueril conclusão de que tudo que podia ser e não é, pode um dia se tornar, não está nas suas mãos, estritamente falando, a concreção de todas as coisas. Fácil saber quando aquilo é, mas no que vem a ser, naquilo que não é, não podia assegurar qualquer preposição, qualquer certeza, teria de colocar o pé para descobrir, teria que respirar fundo e mergulhar no inaudito, porque se tudo tem seu limite até o seu mundo que ele representou tem um. Visto que há tantas possibilidades de ele vim a se tornar que qualquer barreira que viesse a colocar só resultaria num fracasso de tornar aquilo que é para ainda ser. Por isso, só de uma coisa tinha certeza, de hoje ser terça-feira, que estava sentado numa praça, debaixo da sombra de um cajueiro tão contingente quanto ele e todas a vias e pessoas que pela sua fronte caminhava, são possibilidades de algo que o mero pensar não pode dizer, apenas tinha de escolher um sem saber no que seria resultado, mas teria de escolher, pois aquele mundo antigo já não pode mais satisfazê-lo. Tornou-se ciente das suas potencialidades. Deste modo, Miguel se levantou e escolheu um dos caminhos.