Bergson – Existência e Tempo

A duração, filha da intuição, encontra-se deturpada/alterada uma vez que a inteligência a projeta no espaço.

A duração toda pura é a forma que toma a sucessão de nossos estados de consciência quando nosso ego deixa viver, quando ele se abstém de estabelecer uma separação entre estados presentes e estados anteriores. Ele não tem necessidade, por isso, de absorver  toda entrada na sensação em que a ideia passa, pois então, ao contrário, ele cessa de durar. Ele não tem mais necessidade de ocultar estados anteriores: ele basta chamar esse estados, ele não justapõe os estados atuais como um ponto à um outro ponto, mas os organizam consigo, como acontece ao lembrarmos, por assim dizer em conjunto, às notas de uma melodia. Não se pode dizer que, se essas notas sucedem, nós a percebemos nada mais que uma depois da outra, e que dela unida é comparável a um ser vivo, cuja as partes, embora distintas, se penetram por efeito mesmo de sua solidariedade? A prova é que  se nos rompem a medida em insistência mas que da razão por nota da melodia, não é longamente exagerada, enquanto longa, nos avisará de nosso falta, mas a mudança qualitativa contribui para o conjunto da frase musical. Pode-se então conceber a sucessão sem a distinção, e como uma penetração mútua, uma solidariedade, uma organização intima de elementos, cuja cada um, representante do todo, não se distingue e somente se isola para um pensar capaz de abstrair. Tal é sem nenhuma dúvida a representação que se fez da duração no ser uma vez identificada e modificada, que se terá nenhuma ideia de espaço. Mais familiar dessa última ideia, obcecada mesma por ela, apresentamos nosso conhecimento em nossa representação da sucessão pura; nos justapõem nosso estado de consciência de maneira aperceber-se simultaneamente, não mais um que outro, mas lado a lado do outro; enfim, projetamos o tempo no espaço, exprimimos a duração em extensão, e a sucessão tomada para nós a forma de uma linha contínua ou de uma corrente, cuja as partes se tocam sem se penetrar.

Ensaio sobre os dados imediatos da consciência, capítulo II, da multiplicidade de estados da consciência, a ideia de duração.

Tradução de Thiago Dantas.

Acerca do alfa privativo do théos

Há um caminho da humanidade que se chama zona de conforto que as pessoas invariavelmente procuram tal zona. Entretanto, ela varia de pessoa e o que para uma está nas mil maravilhas para outras ainda falta outras para poder se satisfazer e se acalmar. Assim, até atingirmos a zona ficamos presos numa briga de diálogos, de socos, tiros, etc. Tudo na expectativa para que as coisas fiquem de maneira agradável, do jeito que você quer! Não como a coisa tem de ser, mas altamente relativo a sua vontade. Quando alguém exorta posições que venham a desagradar o numero de pessoas conformadas com as suas vidas e que sua zona de conforto depende daquilo, então esse alguém é levado ao último patamar da humanidade, sendo rotulado de inúmeros nomes que venham hostilizá-lo. No Brasil há inúmeras de coisas que incomodam as pessoas deixando-as pensativos porque aquele grupo fala daquele modo, se veste, fica feliz por ser daquele jeito e não por esse. Dentro desses inúmeros modo há o ateísmo. “O ateu é uma pessoa que atira no próprio pé, como podem negar aquilo que os fundamenta?” assim questiona os sensatos. Porém e se na verdade, o próprio fundamento já não denota uma mentira?

Essa questão não pode ser levantada pelos sensatosquanto mais serem respondidas por eles. De qualquer forma, a procura de uma razão por aquilo que nos aparece é exigida por aqueles que procuram uma forma para amenizar os entraves que a vida apresenta, assim, a mera possibilidade de cogitar a presença do acaso como sentido maior para os ordenamento do mundo é refutado de maneira violenta. Um desses modos de precaver o homem de uma posição no cosmo de maneira privilegiada e com as coisas ao seu redor regidas por uma ordem supra mundana, condiz ao ateísmo. O ateísmo se condiciona a partir do a-privativo, que nega o theos, uma ordem transcendente, em melhor palavra divina. Há uma confusão em estabelecer o ateísmo em uma crença (no sentido religioso do termo) negativa, onde àquilo que nega só ratifica a afirmação da sua existência, quando o cerne da questão está distante desta tentativa tosca de fugir da não crença em deus. Pois, o ateísmo é muito mais uma posição do indivíduo frente ao mundo, quer dizer, a ordem possível do mundo, visto que se posiciona como se para tudo que nos cerca não há uma razão transcendente por trás pela qual não somente explica o mundo, mas também interfere em nossa vida. Claro que mesmo há ateísta que apresenta a explicação a partir das leis da física e sustenta tudo a partir disso, não deixando espaço para o erro da física. Mas, a grande coisa é a posição do indivíduo no mundo, não precisa explicar que suas ações são dirigidas por ordem uma lei vinda de uma crença milenar que com o passar do tempo não apresenta qualquer tipo de evidência.

Outro ponto, é o questionamento de que o ateu não pode provar que não há deus. Ora, só podemos provar a existência de algo e nunca a não-existência, pois podemos provar que cavalos não possuem chifres porque até hoje todos os cavalos não possuem chifres, isso é dado por David Hume no sentido da experiência: todos os cisnes são brancos até o momento que encontramos um cisne negro. Do mesmo modo, não posso provar que duendes não existem, e sim a partir da experiência e das repetições cotidianas não nos deparamos com entes polegares que moram no fim do arco-íris. Assim a prova tem de vir daqueles que acreditam que haja um deus que criou as coisas em sua ordem e medida. Já que condicionar a prova remetendo ao fato tacanho das coisas que se encontram ao nosso redor não pode vir do nada, ou melhor questionar quem criou todas as coisas, esquecem que a pergunta: é mesmo necessário um criador? É altamente válida e inúmeras teorias filosóficas sustentam tal questionamente, como por exemplo, Heráclito anterior a filosofia, ou seja um pensador originário (nos dizeres heideggerianos), que escreveu o seguinte:

Este mundo, o mesmo em todos, nenhum dos deuses e nenhum dos homens o criou, mas sempre foi, é e será, fogo sempre vivo, acedendo segundo a medida e segundo medida apagando.

Portanto, o ateísmo não pode ser condiciona ao mero valor de crença, antes a uma posição humana frente ao universo, onde o trata como uno e não necessitando de um deus qualquer para poder dar sustentação a ele. Para terminar duas coisas: o ateu não fica doutrinando as outras pessoas para que se tornam ateus, e sim procura através das suas posições teóricas ou práticas que não necessitamos de uma entidade supra terrena para legitimar nossas, somos bons ou más porque somos não por desvirtuar alguma norma transcendente. Quem doutrina o ateísmo através de “provas” é um religioso (no pior sentido do termo). Segundo, não quer dizer que um sistema político que se diz contra religioso seja ateísta, pois ele se aproxima do herético, do anticlerical, ou quer absoluto poder ao estado. Ressaltando mais uma vez, o ateísmo é uma posição do indivíduo no cosmo, não se restringindo a questão política, religiosa ou econômica e por último, não é porque seja ateu tenha que sustentar todas as posições da ciência como se ela agora desse todas as respostas, não! Nem todas as nossas aflições podem ser respondidas ou solucionadas. Ainda bem que seja assim, porque só vem a afirmar a nossa liberdade de sermos humanos no mundo provido de fundamento último aquilo que nos apresenta. E como escreve Dostoievsky na voz do Ivan Karamazov:

…que em toda a face da Terra não existe terminantemente nada que obrigue os homens a amarem seus semelhantes, que essa lei da natureza, que reza o homem ame a humanidade, não existe em absoluto e que, se até hoje existiu amor na Terra, este não se deveu à lei natural mas tão-só ao fato de que os homens acreditavam na própria imortalidade […] destruindo-se nos homens a fé em sua imortalidade, neles se exaure de imediato não só o amor como também toda e qualquer força para que continue a vida no mundo […] não haverá mais amor, tudo será permitido, até a antropofagia […] concluiu afirmando que, para cada indivíduo particular, por exemplo, como nós aqui, que não acredita em Deus nem na própria imortalidade, a lei moral da natureza deve ser imediatamente convertida no oposto total da lei religiosa anterior. […] Pois quando a humanidade, sem exceção, tiver renegado Deus (e creio que essa era virá), então cairá por si só, toda a velha concepção de mundo e, principalmente, toda a velha moral, e começara o inteiramente novo. Os homens se juntarão para tomar da vida tudo o que ela pode dar, mas visando unicamente à felicidade e à alegria neste mundo. O homem alcançará sua grandeza imbuindo-se do espírito de uma divina e titânica altivez, e surgirá o homem-deus. Vencendo, a cada hora, com sua vontade e ciência, uma natureza já sem limites, o homem sentirá assim e a cada hora um gozo tão elevado que este lhe substituirá todas as antigas esperanças no gozo celestial. Cada um saberá que é plenamente mortal, não tem ressurreição, e aceitará a morte com altivez e tranquilidade, como um deus. Por altivez compreenderá que não há razão para reclamar de que a vida é um instante, e amará seu irmão já sem esperar qualquer recompensa. O amor satisfará apenas um instante da vida, mas a simples consciência de sua fugacidade reforçará a chama desse amor tanto quanto ela antes se dissipava na esperança de um amor além-túmulo e infinito.

A physis entre Aristóteles e Heidegger

Na compreensão do conceito de terra, Heidegger procura aproximar ao sentido da palavra physis, que já na tradução latina Natura remete ao âmbito dos seres vivos não humanos e similarmente ao ente enquanto tal na totalidade: Natureza humana. Com isso, o nome “natureza” constitui-se naquela palavra fundamental que nomeia relações essenciais do homem histórico ocidental com o ente que ele não é e que ele próprio é. Desse modo, duas vertentes de pensamento abriram-se no decorrer da história do ocidente que tomaram posição diferente em relação à natureza, pois se no sentido cristão, natureza no seu cerne precisa ser mantida subjugada, em certo sentido, compreende-se de que ela é o que não deve ser. Ou seja, quanto mais o homem se afastar da natureza mais próximo se encontrará do divino. Contribuindo para que na natureza de onde se origina todos os males. Na outra vertente, como por exemplo, em Nietzsche, homo naturae é aquele homem que toma o corpo como fio condutor para a interpretação do mundo e, por isto, alcança uma nova postura de sintonia com o “sensível” enquanto tal. Seja qual for a força de sustentação que se atribui à palavra natureza nas diversas épocas da história do Ocidente, ela sempre contém uma interpretação do ente no seu todo, mesmo ali onde aparenta vir referida apenas como contraconceito.

Podemos ver nesta passagem da Física do Aristóteles: Do ente, o um é a partir da physis, o outro, porém é a partir de outras causas; o que é a partir da physis, contudo, são tanto os animais quanto as suas partes, assim como as plantas, do mesmo modo que os elementos simples dos corpos como a terra e o fogo e a água e o ar.

Todavia, Heidegger adverte para que nós, homens de hoje, sob o predomínio do pensar mecânico das ciências modernas da natureza, tendemos a considerar como a forma fundamental de movimento a mobilidade no sentido de movimento que se desloca de um lado ao outro e explicar por esse modo tudo que está no movimento. Essa mobilidade, com vistas ao lugar e à posição, é designado por Aristóteles como um modo entre outros tipos de movimento enão como o movimento puro e simplesmente. Pois para os gregos, não havia uma definição correta para o que chamamos hoje de “espaço”, o que para nós todos os lugares são determinados como posições pontuais pelo espaço infinito, dotado por toda a parte de um mesmo modo de ser e em lugar nenhum distinto de outro. Com isso, aquele repouso que corresponde à mobilidade no sentido de mudança de lugar é o permanecer no mesmo lugar, por isso, aquilo que não se move, na medida em que ocupa o mesmo lugar, pode mesmo assim estar na mobilidade. Para melhor compreensão alguns exemplos: uma planta enraizada no seu lugar imóvel, cresce e decresce, ou seja está na mobilidade. Ou a raposa que enquanto corre, a camuflagem, fornece a ela o repouso da imutabilidade, ou então até mesmo alguma coisa pode ser movida no sentido de perecer. Em outras palavras toda mobilidade é um transformação de algo em algo, Metabolé, em sentido grego essa palavra indica irrupção, o surgir. Assim, fica entendido que Physis é o surgir de si mesmo para si mesmo.

Entretanto, para os gregos há ainda as coisas que surgem a partir de uma habilidade exterior a elas. Tal habilidade era denominada como Techné, Aristóteles assim explica aTechné: Uma cama, todavia, e uma vestimenta, e se houver outro tipo do mesmo gênero de tais coisas, são, enquanto dizem respeito a e são fixados de acordo com a respectiva interpelação, e na medida em que provêm da perícia produtora de quem conhece o ofício, não possuem de modo algum e em absoluto a irrupção de uma transformação que brota de si mesma; mas enquanto já aconteceu a essas coisas de vez em quando de serem também de pedras e de barro ou misturadas a partir das duas, elas possuem a irrupção de uma transformação nelas mesmas, e o possuem seguramente apenas e precisamente nessa medida.

Com isso os artefatos são na mobilidade da pro-dução e, assim, no repouso de terem-sido-produzidos, essa mobilidade possui outra arché e os que são assim movidos se comportam de modo diferente em relação a sua arché. A arché dos artefatos é a techné, habilidade para produzir, um conceito que significa entender daquilo sobre o que se funda cada fabricação e pro-dução. P.ex. para produzir uma cama se entende daquilo até onde ela deve acabar e completar-se. Um télos, um fim, contudo aquela produção final da mesa, quando ela apareceu pronta é figurada no seu eidos, perfil. Esse eidos deve estar já de antemão em mira e em aspecto de antemão, do qual entende a techné e só por isto que ela se torna também a determinação do modo e da maneira de procedimento do que chamamos técnica.

Nos artefatos, portanto, a arché de sua mobilidade e, assim, de seu repouso e estar pronto e estar terminado, não estar neles mesmos, mas em outro, no architéton, ou seja, naquele que já dispõe da techné enquanto arché. Com isso, a essência da techné não é o movimento do manejo enquanto atividade, mas o entender do trâmite. Diferente das coisas das physis que não tem sua arché em outro ente, mas neles mesmos, contudo essa diferença não aparece tão simples, mas na medida em que o que é visto possui uma significação com a categoria, este termo indica a denominação daquilo que alguma coisa é: casa, mesa, árvore, céu, mar, vermelho. Quando chamamos de casa, de árvore, a algo que está ali presente diante de nós, só podemos fazê-lo na medida em que nisto já chamamos tacitamente e de antemão aquilo que encontramos ali como um algo-constante-em-si, como coisa, isto é, na medida em que  o trouxemos para o aberto de nosso circulo-de-visão. As ‘categorias’ encontram-se na base das interpelações cotidianas que vêm formuladas em enunciados, juízos; e é só por isto que as categorias, ao contrário, podem ser encontradas no fio condutor do enunciado, logos. Nessas explicações da techné podemos dizer que a physis, como explica Aristóteles, é:

De acordo com isto, então, a physis é algo assim como um ponto de partida e um dispor; assim, portanto, ela é o elemento primordial para e sobre o mover-se e repousar daquilo em que, de antemão ela de partida dispõe, primeiramente junto a si e a partir de si, e elevando-se na direção dele, e, por isto, jamais de tal modo como se a arché se ajustasse acidentalmente (no ente).

Ps. O texto usado de Heidegger para a construção do texto foi O conceito de Physis em Aristóteles, que está traduzido por Marco Casanova, na compilação de ensaios: Marcas do Caminho.

O homem. um tagarela.

é difícil conviver com os homens, pois é muito difícil calar. sobretudo para um tagarela. p.135.

A passagem acima é um trecho da parte A Redenção de Assim Falou Zaratustra de Nietzsche. A tentativa de explicar aos outros o que vem a ser o Eterno Retorno do mesmo decai numa tentativa vã de explicar o inexplicável, contudo, Zaratustra se frusta muito mais porque os homens querem a qualquer custo a definição daquilo que é apresentado, só que na maioria das vezes o apresentado a nós é melhor compreendido se for experimentado e não conceituado. Assim acontece com o Eterno Retorno, Zaratustra se esforça para que os homens entendam que a maior redenção consiste em transformar aquilo que foi num assim eu quis, porém até mesmo para Zaratustra essa aceitação é difícil, porque o tagarela denunciado acima é ele próprio que saiu da sua caverna e foi aos homens anunciar o além-homem. Nisso principiou a própria decadência.

Ele ao fundo é uma metáfora nietzschiana para o princípio da dicotomia valorativa entre o bem e o mal, sendo ele o primeiro a estabelecer essa diferença, ele terá de ser o primeiro a superar tal distinção. Contudo, para realizar tal tarefa o sacrifício do homem teria de acontecer, porém, o mais difícil é que após anos em que o homem começou a acreditar na sua existência, a sua volta se formou uma camada espessa onde o morrer não é mais permitido e com isso o mundo se tornou fatigável, pois o homem, ambíguo como ele é, queria viver, porém não nesse mundo, já que diante desse só há sofreguidão, o que fazer? Ora, inventaremos um outro que será perfeito, ideal, nisso os homens começaram a sofrer com aviltamento, já que tudo que passamos nesse momento teria uma razão, um fundamento, e não somente isso, nós como seres de passagem teríamos o privilégio de mantermos por aqui. Assim, nos afastamos de todos os demais viventes, e o homem pode revogar para si como aquele que subjaz a tudo que possa parecer, pois temos um eu! A crença de um eu é um dos maiores erros humanos, perante a ela formou-se uma cultura que procurou edificar a nossa potencialidade distanciando de toda alteridade, pois se penso é porque há um eu anterior a toda ação do pensamento, o qual só conseguem alcançar é eu mesmo, porque tenho o método no qual posso alcança-lo já que sem ele não poderíamos afirmar de maneira peremptória: eu penso!

Quanto às superstições dos lógicos, nunca me cansarei de sublinhar um pequeno fato que esses supersticiosos não admitem de bom grado – a saber, que um pensamento vem quando “ele” quer e não quando “eu” quero; de modo que é um “falseamento” da realidade efetiva de dizer: o sujeito “eu” é a condição do predicado “penso”. Isso pensa: mas que este “isso” seja precisamente o velho e decantado “eu” é, dito de maneira suave, apenas uma suposição, uma afirmação, e certamente não uma “certeza imediata”. E mesmo com “isso pensa” já se foi longe demais; já o “isso” contém uma interpretação do processo, não é a parte do processo mesmo.

Essa passagem de um outro livro de Nietzsche, Além do Bem e do Mal, procura ressaltar justamente essa superstição que nós, modernos, vivemos predizendo a todo bom grado: uma construção lógica só pode ser verificada como verdadeira se o nexo entre o sujeito e o predicado tiver uma referência com aquilo que anuncia. Entretanto, mesmo diante de um eu não podemos sustentar que ele está sugerindo algo no seu enunciado, pois falta a nós uma “certeza” de que aquilo manifestado possa ter alguma prevalência sobre o que já foi ou ainda vai ser, o instante é vazio, não podemos afirmar diante dele nada além do que já foi. Mas, para onde seguiremos se a própria linguagem é a nós cortada? Ao “isso”! Essa pura indeterminação, diante da qual nossas crenças não são fixas, pois qualquer fixidez hoje se tornará amanhã uma ignorância pelo que podemos ser, já que se imaginamos uma prevalência da alma perante o corpo, é porque este é a nós desconhecido, não podemos responder o que pode um corpo, visto que responder a isso, é diminuir tudo o que somos, um eterno isso que se conforma com a efemeridade.

Ademais, criamos uma imagem para acalmar essa efemeridade: Deus. Entretanto, ele é uma conjectura vazia porque não tem corpo, se tivesse não cairia no sacrifício para imolar o homem, porque todo sacrifício concerne em perda de potência. Assim só resta a Deus a pura performatividade emaranhada no falatório dos crentes vãos que imaginam algo além do que eles mesmos. Nesse caminho, podemos utilizar da escrita de Agamben em O Sacramento da Linguagem:

o argumento ontológico diz simplesmente que existe a língua, Deus existe, e o nome Deus é a expressão dessa performance metafísica. Nela, sentido e denotação, essência e existência coincidem, e a existência de Deus e sua essência são uma coisa única e existência. p.66.

Portanto, a concretude de Deus só é possível pelo homem que fala, porém se o homem se encontra no seu fim, Deus já não é possível como aquele que efetiva, fundamenta, nossa ações, ou seja, o homem, só ele mesmo, no exercício da sua cotidianidade pode ratificar como algo sendo verdade ou não. Contudo, o homem estando preso ao tempo, se revela como finito e qualquer tentativa de escapar disso decai num escapismo fugaz daquilo que ele a cada vez se mostra: um tagarela!

O devir da história para uma cultura

A tradição ocidental por diversas razões não aceita o “instante” como vigente, e freqüentemente considera o devir como um simples movimento em que o contrariado, contestado, louvado, seja apenas um momento que desaparece no tempo. Tanto que, incitar a memória, a consciência de eventos passados é recorrente a uma verdadeira civilização, com o intuito de que os estágios se tornem fixos educando, assim, os indivíduos nessa direção. Entretanto, essa mesma vontade de manter o que se passou, mantém ao mesmo tempo a vontade de esquecimento, por que compreendem que certas ações reveladoras deveriam, após executadas, ficar escondidas, inacessíveis, não ocorrendo com isso o arrependimento e a má-consciência. Só que o erro continua a mostra, do mesmo modo que os acertos, tendo o homem desse modo que conviver com ambos. Mesmo desejando que a morte logo viesse para se livrar destes infortúnios, não resolveria, pois como Nietzsche escreve “se a morte traz por fim o ansiado esquecer, então ela extingue ao mesmo tempo o presente e a existência, imprimindo, com isto, o selo sobre aquele conhecimento de que a existência é apenas um ininterrupto ter sido, uma coisa que vive de se negar e de se consumir, de se autocontradizer” (NIETZSCHE, 2003, pg. 8-9).

Diante de tais dificuldades, aparece ainda o fato de que para se manter feliz, o homem deve, como escreve o próprio Nietzsche, igualar-se ao cínico da Grécia Antiga. Pois através desta postura, compreender-se-á que uma mínima felicidade, contanto que não tenha um fim fixo, é absolutamente maior que uma esporádica, porquanto nesta, mesmo advindo de inúmeros episódios, quanto maior for a felicidade, em proporção similar será também a infelicidade que mais a frente surgirá. Inclusive, essa mínima felicidade, se instala no sentir a-histórico, ou seja, no modo de ter aquele momento de felicidade como único não havendo uma causa de tempos remotos para aquele deleite do instante. Todavia, toda civilização incita um ponto de insônia, de eterno lembrar-se desse ou daquele fato, para poder se constituir, ficando sempre o episódio lembrado como “educador” ou formador para um povo ou uma cultura. Mas há um grau de insônia, que caso o seu limite não seja verificado pode sucumbir qualquer civilização, povo ou cultura. Continue lendo

Desconstrução e Ontologia em Ser e Tempo

desconstrução (Destruktion) da ontologia tradicional empreendida por Martin Heidegger se inicia com a repetição da questão do Ser no horizonte do sentido a partir da qual ele formula uma nova ontologia calcada na analítica do ente primordial; o Dasein. Heidegger escreve que apesar da nossa época ter todo interesse pela “metafísica”, a questão do Ser caiu no esquecimento, mesmo considerando que a questão é tão essencial e por isso foi a motivadora das pesquisas de Platão e Aristóteles. Desse modo, repetir a questão do Ser é necessário uma vez que esta é a interrogação fundamental da filosofia.

Para tanto, Heidegger, primeiro, esclarece alguns dos pré-conceitos atribuídos ao Ser, dados como definitivos, mas que apenas desfavorecem a retomada da questão. Por exemplo, aceitar a universalidade do Ser não indica qualquer clareza, uma vez que o Ser transcende qualquer universalidade genérica. Como podemos apreender na ontologia medieval o Ser era considerado um “transcendens”, consideração já presente nos estudos aristotélicos pela unidade da analogia que entendia a universalidade em geral frente à variedade multiforme de conceitos. Todavia, a unidade de analogia instalou uma nova base para os problemas do Ser, devido ao obscurantismo dos nexos categoriais. Com isso, uma explicitação ficou ausente até, inclusive, na Lógica do Hegel a qual indicava o Ser como “imediato indeterminado”. Por isso, “quando se diz, portanto: ‘ser’ é o conceito mais universal, isso não pode significar que o conceito de ser seja o mais claro e que não necessite de qualquer discussão ulterior. Ao contrário, o conceito de ser é o mais obscuro” (Heidegger, 2005, pg.29).

Ainda devido à máxima da universalidade, o Ser foi encoberto mais um pré-conceito: a indefinibilidade, já que não se pode atribuir ao Ser conceitos a partir de avaliações superiores ou inferiores. Contudo essa impossibilidade não indica, de acordo com Heidegger, um problema apenas quer dizer que o Ser não é um ente, nem pode ser tratado como tal, nem tão pouco indicá-lo como evidente. Visto que ao denominar um ente, p.ex., o céu é azul, este é apenas apresenta uma modalidade do ser do ente e não o seu Ser. Assim seguindo a via dos exames dos pré-conceitos ficou clara a necessidade de uma repetição da questão, uma vez que, de acordo com Heidegger, ela mesma se tornou obscura e sem sentido. Porém, essa repetição tem o intuito de colocar a questão de uma maneira suficiente para que o horizonte do sentido do Ser se apresente. Continue lendo

Filosofar com o Martelo

Sobre o filósofo alemão Nietzsche posso afirmar que é um dos pensadores mais conhecidos do mundo tanto para especialistas quanto para leigos. Principalmente se restringirmos ao âmbito da filosofia, pois ao perguntamos a um leigo a cerca da filosofia muito possível que ele reportará seja aos gregos, aqui refiro a Platão e Aristóteles, ou a Nietzsche, talvez outro que possam indicar seja Marx devido a grande influencia política no século XX e um pouco confundindo Freud com a classe dos filósofos. Porém raramente você verá alguém reportar por exemplo a Kant. Que como sabemos foi o grande divisor de  águas da filosofia depois de Aristóteles. Pode colocar talvez Sartre, mas sinceramente hoje em dia, Sartre não carrega tanta publicidade como tempos atrás e hoje quem ouviu falar de Sartre, também ouviu falar de Kant. Diferente de Nietzsche. Mas com toda essa comoção ao pensamento de Nietzsche será que as pessoas conhecem Nietzsche? Refletem sobre seus pensamentos? Claro que não. Tanto mais porque, muitos utilizam da filosofia de Nietzsche como espécie de auto-ajuda, recorrendo a aforismo soltos sem qualquer identificação com o obra em si.

Assim, entender a expressão “Deus está morto” é de um labuta tamanha que as pessoas viram a página numa rapidez que não percebe a “novidade” ali presente. Porque, primeiro, Nietzsche não diz que Deus não existe e sim que ele morreu, ou seja, o que antes dava fundamento e sentido as nossas ações já permanece ausente. Seu imperativo não é mais considerado. Uma das grandes coisas é que quem matou não foram os descrentes, porém os que acreditavam nele firmamente, carregavam a sua “palavra” com ferro e fogo, procurava avaliar esse mundo de acordo com um mundo além que aos poucos foi sendo verificado como fumaça espúrea sem o pingo de força para julgar as ações humanas. A partir disso, a sombra do Deus morto nos circundo e hoje presenciamos o fundamentalismo que é exatamente na ausencia de fundamento que a violência se sobressai na procura de que ao menos desse modo o antigo sentido possa ser glorificado. Mas de acordo com Nietzsche é exatamente por querer carregar esse antigo sentido, meta, não prestar atenção ao novo que o homem contemporâneo está entregue à afirmativa: é tudo em vão. Aí o Niilismo reina e homem perdurá nesse século na completa falta de sentido, na escuridão do “assim foi”! Porém, Nietzsche traz um outro conceito para contrapor a esse niilismo ativo negativo que cada vez nos circunda, qual seja o conceito de além-homem (Übermensch).

O que vem a ser o além-homem? Como é sabido por muitos anos tinha como recorrente a tradução de Übermenschcomo super-homem provocando enormes equívocos no pensamento. Porque daria atender que Nietzsche indica um homem elevado a extra-ordinárias habilidades como ocorre com o personagem da HQ. Não. Nietzsche com o além-homem quer indicar um novo modo de ser humano totalmente diferente do que temos conhecido até hoje, onde sua força é “alimentada” pela vontade de poder inerente a si mesmo, não se sustenta a nada que seja exterior, porque se arvorar em qualquer coisa exterior a si mesmo é sinal de fraqueza. Por isso, ele é além, não há nada hoje que o simboliza, ele está além… Segundo, esse além não refere a um plano transcendente que encaminha para um novo mundo. Jamais. A transcendência do além-homem é horizontal e pertencente a terra, como Nietzsche escreve em Assim falou Zaratustra: devemos salvar a terra. Salvar no sentido de fornecê-la suas potencialidades para que nada a impeça de tornar aquilo que ela é. Além do que Nietzsche no subtítulo de sua autobiografia Ecce Homo sublinhou: Como tornar-se aquilo que já é. O além-homem como sendo um horizonte ele é aberto a atual humanidade, não uma simples meta, ou crença, mas um modo de pensar que influencia nossas ações, para que aos poucos compreendamos que devemos transformar o “assim foi” num “assim eu quis”.

É por isso que Nietzsche permanece ainda hoje um enigma e as pessoas consumindo sem saber o motivo cai cada vez no abismo, porém não dançando, e sim rogando preces a algo que nunca virá, pois Deus está morto!