Efêmero Feminino III

Qualquer mudança na ordem das coisas atrai uma camada de reclamações, mas pouco percebe os alcances que podem ocorrer quando pensamos atribuir uma possibilidade a pessoas que nem imaginavam possuí-la. Esse foi um caso que aconteceu com a senhora Constança. Não vou me alongar muito porque não estava presente quando aconteceu o caso, o meu relato para esses raros ouvintes será do ouvir dizer. Numa tarde de quarta-feira, a senhora Constança foi para casa e chegando viu que ninguém mais se encontrava por lá, sozinha, olhou para cada cômodo da casa e sem um rastro de ser vivente, deitou-se e começou a chorar. O choro veio de maneira impensada sem motivo maiores, porém, tão logo recompôs foi para cozinha e preparou algo pra comer, quem sabe faria um bolo. Os seus três filhos chegariam da escola e até que seria bom presenteá-los com um bela guloseima. Sem outras interrupções começou a preparar o bolo. Mas de qual sabor? De macaxeira? De leite? Ou, de ovos? De ovos!

untitledEssa cena, caro ouvinte, pode lhe parecer bem frívola, habitual, ordinária. E, assim, já começa a rebuliçar na cadeira pensando se deve ou não continuar ouvindo esse relato. Bom, a escolha é sua, mas te falo que o importante não está na cena descrita, e sim no que impeliu a essa senhora chegue em casa e após chorar, fosse na cozinha preparar o bolo para os filhos. Então, primeiro, digo que o motivador  dessa ação é pelo fato de que a Constança finalmente chegou em casa, no meio da semana e antes dos filhos, dando a possibilidade de ela preparar algo para que as suas crias possam saborear uma comida feita pela própria mãe. Pois, em dez anos de trabalho rarissímas foram as vezes que essa cena pode repetir, na verdade, ela chegava em casa lá para as altas horas os filhos já dormiam no seu sétimo sono e quando não, dormia no local de trabalho e, assim, só apareceria em casa durante o fim de semana. Sem contar que durante esse tempo no trabalho a sua vida ficava à mercê dos patrões, mesmo que o horário viesse a ser inumano, a senhora implicitamente continuava o seu trabalha e de maneira cínica os patrões pediam “favores”, pequenas coisas que não viriam dar trabalho à senhora. Porém, hoje conseguiu chegar em casa e já havia terminado o bolo.

Os filhos chegando em casa ficaram surpresos com a presença da mãe naquele horário. Deram um abraço coletivo. E a mãe sorridente falou que tinha preparado bolo para eles. Os meninos correram para pegar seus pedaços. Então um deles perguntou: “Mãe! O que aconteceu pra tá em casa agora?” A senhora Constança respondeu que agora chegaria nesse horário, pois houve uma mudança no trabalho que não somente estaria essa hora em casa, como também, aos sábados só ficaria até 12:00 no trabalho e, assim, curtiria o fim de semana com eles. Esse mudança deveu-se ao PEC 478/2010 que forneceu condições trabalhista à doméstica em que a partir de agora teria 8h de jornada de trabalho ao dia, além do que um dia de folga nos fins de semana. Essa lei foi promulgada durante o exercício de presidencia de uma outra senhora: Dilma Rousseff. Esta que não teve voto da professora Constança, porque os seus patrões falaram para a Constança que outro candidato iria atender não apenas o interesse dela, mas dos próprios patrões. Claro que após esse acontecimento, os patrões ficaram bastante raivosos com o governo por dar direito aqueles que os estavam servindo e quanto aquele que era beneficitário do serviço não tinha a mobilidade que tanto os acomodavam. Porque agora, para sair a noite não seria tão divertido porque os seus filhos ficariam sozinhos em casa sem algum responsável. No primeiro momento pensou em não contar mais com o serviços de Constança, mas prevendo uma dificuldade maior em contratar preferiu mantê-la e seguir os novos diretrizes. Inclusive, porque com essa senhora arrogando direitos que só existiam aos patrões, o custo ficaria tão grande, que poderia realizar um sacrifício para manter com o “artigo de luxo” que agora presentava a eles.

Em sentido contrário, a senhora Constança finalmente podia sair pro trabalho sabendo que ao fim do dia iria sorrir com os filhos e apesar de aparentar uma pequena mudança, seria substancialmente grande para os caminhos ainda a trilhar.

Efêmero Feminino I

Em trânsito para casa, Manuela fita o horizonte sem aguardar qualquer coisa, apenas dirige seu automóvel num movimento maquinal sem espaço para reflexão em cada virada nas esquinas. Esquinas permeadas de barulhos enjoativos que só a fazem  querer chegar ao mais rápido em casa, descansar após um dia de vários ires e vires. Tão logo que chegou em casa, tirou a roupa e entrou no banho, após algum tempo banhando seu corpo, sai e coloca uma roupa mais confortável. Senta na frente do PC olha as atualizações dos amigos, nem parece que o dia é outro, está a mesma coisa e as mesmas pessoas postando seus assuntos triviais. De vez em quando alguém aborda algum assunto interessante e ela resolve fazer um comentário. Num período de tempo ocorre uma discussão, porém breve ela enxerga que aquele falar não irá para qualquer direção, somente aquelas posições tão bem conhecidas. Será que alguma coisa inusitada poderá acontecer? Já não aguardava por isso…

Levantou-se e resolveu comer. Não tinha muito apetite, passando pelo espelho olhou para si e julgou que estava engordando, porque não se mantém num peso sempre independente do que aconteça na vida? Assim poderia saborear vários pratos, beber como se não houvesse amanhã e comer várias guloseimas sem se preocupar se a sua barriga iria criar uma saliência que viesse incomodar. Mas isso é privilégio para aqueles que não possuem preocupações. Sentada na cozinha pega um talher, começa a manuseá-lo e nisso a lembrança começa a trabalhar, lembra de quando soube estar grávida, o quanto isso a emocionou, o desejo de ser mãe a acompanhava ao menos desde os 17 anos, mesmo planejando nunca casar tinha certeza de que queria ter um filho. Porém a gravidez veio com um rapaz que nos primeiros meses parecia bem solícito, só que aos poucos foi mostrando a sua máscara e, no fundo, a visava somente para aliviar as tensões do dia e não que isso queira significar alívio de tensões para Manuela. Na verdade, depois do primeiro mês quando ele subitamente se alojou no apartamento dela já não tinha tanta atenção, carinho quanto era no início. A procura era somente por sexo e nas horas que se sentia muito sozinho ter alguém para escutar os seus problemas. Como é que fui ficar por três meses com ele? Pensava seguidamente. Depois de ter conseguido romper qualquer relacionamento com ele, descobriu que estava grávida, contou a Roberto, contudo ele desdenhou dizendo que não podia ter certeza de que ele era mesmo o pai, já que nas últimas semanas ela estava fria e distante e não mais fazendo sexo com o mesmo prazer que tinha antes, desse modo, estava saindo com os outros homens. Manuela sabia que era dele, antes se fosse de outro, porque assim não teria de olha-lo novamente. De qualquer maneira, Roberto recusou a paternidade e disse que não a queria mais vê-la. Furiosa com a situação, foi pra casa, nunca mais teve notícia de Roberto.

Depois dessa lembrança, Manuela levantou-se e preparou um café, sentou no sofá da sala e retornou a lembrar daqueles momentos. Pois, após do afastamento de Roberto, Manuela se via sozinha, já que tava morando em outra cidade, longe da família, na perspectiva de realizar o doutorado em Geografia, vivendo numa metrópole onde o custo era altíssimo. Ela triste decidiu consigo mesmo, sozinha, procurar um clínica que pudesse fazer o aborto. Ela tinha uma enorme vontade de ser mãe e, justamente, por compreender a importância da maternidade, ter o filho naquelas condições, na situação em que ela se encontrava seria um desastre. Não porque estava sendo egoísta e uma maternidade lhe retiraria das possibilidades de ascensão financeira, mas sabia que se sacrificasse tudo que ela estava construindo, fatalmente decairia num fracasso consigo e o peso seria entregue totalmente à criança que jogada naquele contexto, já nasceria carregando uma dívida pela qual nunca poderia pagar. Além do que  sabia que corria o risco de não ter outra oportunidade em ter um filho, pois mesmo com seus 25 anos não se pode projetar certezas para a vida, pois a indeterminação é o fulcro principal que carrega nossas decisões. Superando todas essas dificuldades procurou uma clínica e realizou o procedimento de interromper a gravidez.

Apesar dessa triste lembrança, ela sabia que fez a coisa certa, já que aqueles que podiam critica-la nunca fez nada pra ajuda-la, alguns até mesmo nem sabiam qual era o seu nome. No anonimato teve alegria, no anonimato teve tristeza. Depois de tomar o café sentou na frente do computador e começou a escrever um conto que retratava essa experiência.